As Oito Salas de Lielsen – Sala Dois

— Aaaahhh!!!!! – gritou, entrando de novo na sala branca e deixando a porta se fechar. Ouviu os carros do brinquedo passarem voando do outro lado.

Respirando rápido sob efeito do susto, Lielsen empurrou a porta novamente e cuidadosamente olhou o novo local. Não era simplesmente uma montanha russa de trilhos amarelos e imensos loopings e quedas, era uma cordilheira russa inteira!

Com os olhos arregalados e completamente absorto, ele nem percebeu que havia entrado a passos lentos e cuidadosos no lugar e que a porta atrás de si havia fechado com um suave clique, desaparecendo em seguida.

— Este não é um lugar muito seguro. Mas nossas vidas também não são, certo? Eis uma boa representação. – Lielsen voltou a cabeça para sua esquerda e deu com o dono daquela voz cansada e meio fanha. Era um velho muito magro, muito alto e de cabelo estranho. Segurava uma bengala de mogno e do bolso do casaco que usava pendia a corrente dourada de um relógio.

O rapazote se aproximou da figura que segundos antes não estava lá com desconfiança.

— Nosso carro está chegando. – Prosseguiu o velho. Pássaros cruzavam o céu ao alto.

— Quem é você? Aliás, onde estou? O que está acontecendo?

— Eis o nosso carro! – disse o velhinho, empolgado.

Uma fileira de carrinhos vermelhos chegou devagar perto deles até parar. Todos os lugares estavam ocupados, exceto os dois da frente.

— Vamos, vamos! – Lielsen não se moveu. O vento bagunçava seu cabelo e agitava suas roupas.

— Eu não vou entrar.

— Vai morrer se ficar parado aí. Vamos meu jovem, que outras opções você tem? — Lielsen olhou para trás, se lembrando subitamente de onde viera, e seu sangue gelou ao constatar o sumiço da porta.

— Mas que porra foi que…

— Exato! Entre, venha, já estamos saindo!

Sem ter muito o que fazer, e a contragosto, Lielsen subiu no carrinho e sentou-se ao lado do velhote.

— Espera um pouco, cadê?

— Cadê o quê? – inquiriu o velhinho, um sorriso simpático formado no rosto. O carrinho recomeçara a rota, bem devagar.

— A trava de segurança, o cinto, qualquer coisa!

— Hahahaha! A vida não nos oferece essas coisas!

Os carrinhos enfileirados começaram a ganhar velocidade e uma monstruosa descida aguardava mais à frente. Por todos os lados a montanha russa estendia-se com suas voltas e quedas abruptas. Milhares de quilômetros de trilhos amarelos faziam as mais variadas curvas, teciam as mais diversas linhas. Lá embaixo, o oceano, e os trilhos raspavam na água.

— Como assim?! COMO ASSIM?!

Chegaram à grande descida. Lielsen jamais havia contemplado tamanha altura em sua existência, mal conseguia distingüir o azul da água embaixo.

— Espera, espera, espera, espera, espera POOORRAAAAA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

— Hahahahahahahahaha!

A gritaria foi geral enquanto, como um míssil, os carrinhos se precipitavam num percurso que era praticamente uma queda livre, com a ressalva de que a velocidade em que estavam superava e muito a velocidade de uma simples queda. Era quase uma descarga.

— POR QUE EU NÃO ACORDO?!!!! AAAAAAHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

— Você não está sonhando!!! Hahahahahahahaha!

Em determinado momento do trajeto vertical tudo ficou mais escuro de repente e Lielsen pôde notar que eles estavam cercados por árvores gigantescas. Nem os maiores prédios do mundo reunidos conseguiriam fazer frente a uma planta daquelas que fosse.

— ISSO É ENORME!!!

Depois a escuridão foi total, para em seguida a claridade queimar os olhos de todos nos carrinhos. Com toda a sua majestade, o oceano de águas azuis ficou totalmente visível, e acima dele, por todo lugar, entre as nuvens brancas e entre as gaivotas, linhas daquela onipresente montanha russa se entrelaçavam. Lielsen notou que a descida estava para terminar numa abrupta curva que dava numa reta rente ao mar. Reta essa que ia inclinando-se mais à frente e virava um perigoso passeio lateral a poucos centímetros da água.

Mais uma vez todos gritaram antes de sentir gotículas aquáticas visitando-lhes as faces. A velocidade continuava absurda.

— Ah não, vai virar, vai virar, VAI VIRAR!

— Sim, vai! Aproveite que está desse lado pra colocar a mão na água! É muito gostoso!

Num solavanco, os carrinhos acompanharam a inclinação dos trilhos e Lielsen podia sentir as pontas laterais de seus cabelos ficando molhadas.

— Coloque a mão, coloque a mão, não tem tubarão!

Com a adrenalina a mil, Lielsen resolveu curtir e pôs devagar a mão esquerda no belíssimo oceano. A sensação foi maravilhosa e um rastro foi sendo deixado para trás. Logo eram vários rastros, pois muitas outras pessoas haviam feito a mesma coisa.

— UHÚÚÚ!!!!!!!!!!!!! – gritou o rapaz, sorrindo.

— Hahahahahahahahaha!

Alguns momentos depois, o carrinho deu uma guinada quase repentina pra cima, ao que todos gritaram, uns até rindo, e a subida continuou numa velocidade vertiginosa, não era nem possível ver o fim do trilho.

Após vários minutos, Lielsen comentou com o velhinho do seu lado:

— Caramba, teremos outra descida monstro pelo visto!

Logo os carros passavam loucos entre montanhas que pareciam rasgar o céu, nuvens e aves eram deixadas para trás. Foi então que a velocidade foi diminuindo. Pouco depois estavam todos no topo contemplando um colossal cenário com montanhas verdejantes na base e nevadas no topo. Em suas encostas e penhascos, numerosas cidades e vilas com as mais diversas formas de arquitetura, desde imensos e pontiagudos telhados vermelhos e triangulares, até construções espigadas e metálicas, e também grandes palácios que mais pareciam planaltos, de pilares enfeitados, com esculturas grandiosas nos parapeitos, espalhavam-se, como que completando o espetáculo. Por todo lugar o trilho continuava, e mais à frente no percurso uma série de voltas que imitavam o número oito e o símbolo do infinito esperava os passageiros.

— Puta que o pariu… – deixou escapar Lielsen, engolindo em seco em seguida quando lembrou que não tinha cinto nem trava de proteção.

O carrinho parou a alguns metros da descida. O adolescente sentiu mais do que viu algumas pessoas fazendo o sinal da cruz. O velhinho de voz fanha tinha uma expressão de felicidade e ansiedade, como quem não visse a hora da descida acontecer.

Uma coisa era certa. Esta descida superava e muito o tamanho da anterior, a qual Lielsen já havia achado tremendamente enorme.

— Ei… velho…

— É agora, é agora. – Disse o empolgado senhor, com rútilo infantil nos olhos.

Os carrinhos recomeçaram a andar lentamente, como se de propósito, pra aumentar o suspense de quem estava prestes a ser jogado no abismo. Lielsen fechou os olhos.

— Pai nosso que estais….

De repente a queda.

— Noscééééééééééééééééééééééééééééééeééééééé!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Era como se estivessem sendo sugados com voracidade para baixo. Após outro solavanco tudo ficou ainda mais rápido.

— Uuuuuuuuuuoooooooooooooooo!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

— Hahahahahahaaha – ria o velhinho.

Depois de muito tempo de gritaria, os carrinhos atingiram de repente um plano reto entre as montanhas e suas cidades. O primeiro laço se agigantava diante deles.

— Eu nunca mais fumo maconha na vida!

A violência com que o carro entrou no primeiro laço foi intensa, e logo todos estavam de cabeça pra baixo, para em seguida continuar o caminho.

Oito volteados depois os carrinhos se achavam seguindo furiosamente para nova estripulia, um pouco mais distante e absurdamente maior do que qualquer outra já passada.

— Eu não sou cardíaco! Descobri hoje que não sou cardíaco!

— Prepare-se para voar! – falou o velho com sua voz fanha, animado.

— Voar?! – inquiriu Lielsen, olhando rapidamente para seu companheiro de banco. Foi quando, ao voltar os olhos para os trilhos, notou que após aquele segmento existia só uma breve, porém acentuada, subida de algumas centenas de metro que dava exatamente em… lugar nenhum!

— NÓS VAMOS SER JOGADOS?!!!

— Vamos!

Não deu outra, os carrinhos foram arremessados ao céu.

— CACETEEEEEEE!!!!!!!!!!!!!!!!

— Lielsen, ache sua porta! – soltou o velho.

— Como é?!

— Pule, voe!

Como se obedecendo ao simpático velhinho, todos deixaram seus respectivos assentos e foram lançados rumo a lugar nenhum.

— Mas que… mas que… – sussurrou desesperado o rapaz, antes de também se jogar.

Qual não foi sua surpresa ao delinear perfeitamente várias portas à sua frente, no ar, como se dessem para o firmamento, algumas delas já sendo abertas por pessoas que também estiveram na montanha russa.

O adolescente viu claramente escrito na madeira dourada de uma delas: “Lielsen”

Lielsen chegou até ela. Espantado e boquiaberto, notou que flutuava. Percebeu que não cairia.

Olhou em volta para absorver melhor a cena surreal da qual fazia parte. Várias pessoas abrindo portas no ar, voando entre as nuvens, e abaixo deles, bem embaixo, a maior montanha russa do universo.

Ainda tonto e pasmado, boquiaberto, girou a maçaneta.

*

Recife, 2009

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