As Oito Salas de Lielsen – Sala Quatro

Ao cruzar a terceira porta o garoto se viu no que parecia ser o meio de uma vegetação alta, densa e escura. Não eram árvores, parecia simplesmente mato alto, um estranho mato negro.

Confuso, Lielsen fechou a porta e esperou seus olhos se acostumarem com o breu do local. Enquanto isso, esticou a mão, para pegar em uma das plantas e a textura dela o surpreendeu. Aquilo não parecia vegetal… com a testa franzida, ele se pôs a apalpar, dessa vez com as duas mãos, os curiosos tufos de mato que saíam do chão.

“Esquisito”. Pensou Lielsen, notando que o lugar tinha um leve cheiro familiar. O jovem se agarrou ao cheiro, tentando reconhecê-lo, as mãos ainda ocupadas examinando as supostas plantas.

Quando sua visão se adaptou ao escuro, o adolescente viu trilhas entre o matagal preto e resolveu acompanhar uma a esmo. O chão do local era duro e forrado com o mesmo tipo de vegetação que o cercava.

“Que lugar é esse?” especulava enquanto andava, atento a qualquer coisa mais anômala. “O cheiro que sinto lembra o xampu que uso…”

Lielsen parou de andar, em breve estado de choque. Virou-se de repente para o mato e começou a mexer nele. Em seguida, levou a outra mão à cabeça e encheu-a com seus cabelos.

— Tá brincando…

Olhou em volta, perturbado. Apressou o passo pela trilha que havia escolhido e logo estava quase correndo. Pegou a direita numa bifurcação e não teve mais dúvidas.

— Eu estou em cima da minha cabeça!

— Como pode ser isso? – continuou, consternado.

Lielsen não notou algo que estava à sua frente no chão e tropeçou, caindo com força.

— Mas que… OK, o que é isso? Por que tem um alçapão na minha cabeça? – Perguntou-se, ao mesmo tempo em que olhava para a porta de uma escotilha metálica cravada no seu crânio. Como que por reflexo, o jovem passou a mão pela cabeça porém nada encontrou.

Ainda no chão, sentado, ele se arrastou, curioso, até o gancho que abria o alçapão.

— Eu nunca tive um sonho tão doido na minha vida. – Concluiu, enquanto abria a escotilha.

O barulho de dobradiças enferrujadas envolveu o ambiente, e uma lufada de um ar quente aconchegante foi sentida de imediato.

Havia uma escada de pedra que descia a perder de vista no meio das trevas.

— Algo me diz que devo descer… sei lá… – apreensivo, Lielsen olhou em volta e se levantou, deixando a escotilha aberta. Alguma coisa o estava chamando lá embaixo, mas não com palavras, era algum tipo de magnetismo.

Determinado a voltar pra casa e recordando do pequeno pássaro azul, que dissera haver oito salas ao todo, o rapaz decidiu descer; já estava na quarta sala, era só continuar seguindo em frente e tudo ficaria bem. Balançou a cabeça afirmativamente várias e sucessivas vezes antes de começar a descida

Os primeiros passos foram tímidos, inseguros, e mesmo quando se tornou mais confiante, ele optou por seguir a escada devagar, de forma quase solene.

Levou um susto quando ouviu um firme barulho acima. A entrada tinha fechado e Lielsen até duvidava que ela ainda estivesse lá. Havia apenas um problema agora: ele não enxergava nada. Resolveu deixar seus olhos se habituarem a ausência de luz e sentou num degrau para esperar, tentando divisar os arredores.

Depois do que pareceram horas, ele finalmente conseguiu entrever o restante dos degraus e um caminho sinuoso que o levava até a entrada de algum lugar.

Cauteloso, o jovem terminou a descida e encetou a caminhada sobre a trilha curvilínea que se estendia adiante.

Ao chegar na entrada travou por uns instantes, impressionado com o que viu do outro lado.

— Caramba…

O que estava diante dos olhos do adolescente era incrível, milhares de neurônios gigantes, todos ligados de alguma forma, azulados e de núcleo vermelho rubi, pulsavam, tendo por pano de fundo, à guisa de céu, cenas de toda a sua vida em preto e branco. Algumas ondas de energia e auras rosadas emanavam de seus neurônios, às vezes chocando-se umas com as outras, mas de forma suave, quase como uma estranha dança cósmica.

Incerto do que deveria fazer, ele hesitou antes de entrar no colossal recinto, cujo fim era inatingível aos olhos. Observou com certa expectativa os arredores, esperando alguém para guiá-lo de alguma forma.

Ninguém surgiu.

Com certo medo, Lielsen caminhou com mais certeza, os olhos fixos nas cenas de sua vida que serviam de fundo ao lugar. Sorriu nervoso ao assistir a cena em que o mostrava, aos oito anos, comendo uma mosca morta de um pote de achocolatado jurando que era chocolate.

Riu, dessa vez mais abertamente, quando passou a cena de um susto violento que ele tomou ao jogar “Fatal Frame II”, que o fez pular deitado na cama.

Não percebera que havia parado de andar para assistir a sua vida. Viu com entusiasmo o dia em que ele e uns colegas queimaram um velho sofá num ponto isolado da cidade, perto de uma ferrovia. Antes, tinham bebido e conversado besteira a tarde toda, os skates jogados de qualquer jeito por perto.

Riu de novo quando assistiu a uma queda feia que levara no ônibus. Lielsen havia sido arremessado com gosto durante uma curva, e uma das garotas que estava mais atrás comentara com a amiga, num tom que pensara ser discreto: “Nossa, você viu isso?”

Olhou suas cenas de bebê com especial ternura e sentiu um carinho imenso pelos familiares.

Reviveu também uma briga grossa na qual havia se metido há mais ou menos um ano. Naquele dia voltara pra casa com o nariz quebrado e a camisa rasgada suja de sangue.

— Ele estava errado. – resmungou Lielsen, após rever a cena.

Vibrou internamente quando viu a primeira vez que conseguiu fazer um carro andar. Sorriu abobado quando passou seu primeiro beijo, e balançou a cabeça quando foi mostrada a primeira música que ele tirou na guitarra.

Logo o rapaz estava sentado ao lado de um neurônio gigante, emoldurado pelas ondas de energia rosadas e tendo as milhares de outras células cerebrais ao redor, numa dança surreal, assistindo sua própria vida com entusiasmo, saudosismo, carinho e raiva mal contida.

Era incrível como tão novo havia experimentado tanto. Tinha sido uma vida maravilhosa.

— Então está na hora de acabar, Lielsen? – perguntou atrás dele uma docíssima voz feminina.

Lielsen se sobressaltou, pois percebeu de cara que a voz não vinha de suas memórias. Levantou num salto e se virou para sua companhia.

Uma bela mulher, de rosto angelical e longos cabelos negros encaracolados, vestindo uma túnica branca, estava parada, olhando-o com carinho maternal. Nas suas mãos, um buquê de rosas negras descansava frouxamente.

Lielsen se achegou uns passos antes de perguntar:

— Quem é você? – os neurônios continuavam a pulsar com vigor, ritmo e suavidade, numa mistura rara dessas três propriedades. A energia rosada e as cenas da vida do adolescente também continuavam seu fluxo como se não houvesse interrupção.

— Lielsen, você quer que aquelas cenas a que assistiu tão interessado tenham uma continuação? – ela falava de modo pausado, didático, como se dirigisse a palavra a uma criança de cinco anos. Ele fez uma pequena careta de estranhamento e depois relanceou um olhar às cenas de sua vida antes de responder:

— Está me perguntando se quero que minha vida continue? Claro que quero, por que perguntou isso, mulher? Quem é você?

— Lielsen, olhe e não tema. – Disse a mulher, estendendo uma das mãos em direção ao céu distante.

Lielsen se voltou instintivamente para olhar e se viu dentro de um carro, cantando e gritando com uns amigos, se divertindo muito. Não lembrava daquilo.

Era noite, talvez madrugada. Foi quando do nada, num cruzamento, seu amigo que estava dirigindo ignorou o semáforo vermelho e um ônibus bateu com intensa violência no carro, no lado em que Lielsen estava. Ferro retorcido, faísca e sangue deram o tom da noite para os familiares dos envolvidos.

O rapaz ficou de olhos arregalados e estupefato com o que tinha acabado de ver, uma onda de desespero se alastrou de imediato por todo o seu corpo e ele se virou para a mulher, segurando o forte nó que brotara em sua garganta.

— Não, Lielsen. Você ainda vive. Mas cabe a você decidir se ainda quer continuar vivo.

— Como assim?! É claro que eu quero continuar vivo!

— Tem certeza, Lielsen? – questionou a mulher, tornando a indicar as cenas da vida do rapaz. Ele se virou de imediato.

A cena agora era em um quarto de hospital. Ele conseguiu se reconhecer deitado em uma cama e cheio de tubos e fios acoplados a seu corpo. Ao seu lado, sua mãe conversava com um médico alto, negro e de expressão grave. Ele tinha a mão no ombro dela e parecia consolá-la. Lielsen nunca vira a mãe tão triste, no entanto não conseguiu ouvir o que o doutor havia dito.

Quando sua mãe não agüentou, começou a chorar desconsolada, foi necessário até ser amparada pelo médico para não cair. Lielsen se voltou para a terna mulher de cabelos encaracolados. Já tinha lágrimas nos olhos quando perguntou:

— O que é? o que foi? – ele não disfarçava mais o medo e o desespero.

— Lielsen, você está tetraplégico e seu estado é delicadíssimo. Tem certeza de que quer viver?

— Claro que eu quero viver, eu não estou tetraplégico, eu estou deitado, só deitado, eu posso levantar quando quiser, eu só estou deitado, quieto, posso me mexer quando quiser… – o adolescente não conseguiu conter as lágrimas e logo o que falava era incompreensível.

Quando a misteriosa figura feminina o envolveu num caloroso abraço Lielsen parou de tentar falar e entregou-se às lagrimas, abraçando sua consoladora com força.

— Você não precisa decidir agora, Lielsen. Ainda há mais quatro salas. Pense com muito cuidado. – Disse ela, afagando-lhe a cabeça e beijando-lhe a fronte.

Com o rosto ensopado de lágrimas tudo o que o garoto conseguiu fazer foi balançar afirmativamente a cabeça várias vezes.

— Agora vá, Lielsen. A porta surgiu.

Entre as centenas de milhares de neurônios que brilhavam num misto de azul e vermelho e emanavam uma aura predominantemente rosada Lielsen conseguiu divisar uma porta solitária, como um monólito. Era de madeira escura, com dois quadrados entalhados, um em cima e o outro embaixo.

Os dois se soltaram, e antes de caminhar até seu evidente destino Lielsen enxugou as lágrimas desajeitadamente com o braço e conseguiu retribuir o gentil sorriso da mulher de branco, que o encorajou com dois breves acenos.

Com o nó ainda forte na garganta, o adolescente andou até mais esta porta e agarrou a maçaneta prateada cheia de detalhes que lembravam escamas e lagartos.

Olhou para trás uma última vez e fungou. A mulher o encorajou novamente e ele girou a maçaneta.

*

Recife, 2009

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