As Oito Salas de Lielsen – Sala Cinco

Lielsen soube de imediato onde estava assim que entrou. A porta atrás dele sumiu poucos segundos depois de fechada e o rapaz se viu sozinho na lua.

— Na lua… – admirou-se, surpreso por estar perplexo. Como ele ainda conseguia se surpreender?

Um tanto desnorteado, ele fez um giro no mesmo lugar, olhando em roda. O solo cinzento, as crateras, as estrelas vívidas e límpidas ao redor, no céu, a Terra ao longe, azul e coberta de nuvens com uma vasta camada de detritos espaciais em torno dela…

Sem ter muita escolha, o jovem começou a andar pela superfície lunar e notou de primeira uma diferença incrível em relação a caminhar na Terra. Ele parou de dar os passos e observou os arredores mais uma vez. Tinha acabado de saber que estava em coma, tetraplégico, mas… mas…

Lielsen saiu pulando pela lua.

— Hahahahaha, isso é divertido, olha como eu demoro pra cair!

— Você parece estar se divertindo demais para alguém prestes a morrer. – Declarou uma voz retumbante.

O adolescente, no meio de um pulo, olhou para quem falava e deu um grito, o rosto em pânico.

Um enorme esqueleto de dragão estava de pé majestosamente apoiado na borda de uma grande cratera. Apenas suas asas tinham uma membrana esbranquiçada e mortiça, contudo seus ossos pareciam fortes e vigorosos. Dentro das órbitas oculares um fogo alaranjado ardia intensamente.

— Eu não vou te fazer mal, menino. – Continuou a besta, se aproximando. Os passos pesados pareciam fazer todo o satélite tremer, apesar de seu andar ficar meio engraçado por causa da baixa gravidade.

Lielsen recuara vários passos e tinha uma das mãos levantadas, com o indicador erguido.

— Desculpe-me, mas não posso confiar num dragão.

O monstro parou de andar e suspirou.

— Venha comigo, vou te mostrar o lado escuro da lua.

— Eu não quero ver o lado escuro da lua.

— Venha quando quiser. É bom lembrar que você não tem muito tempo. Seu corpo pode não agüentar tanta espera. – Falou o dragão, depois de virar as costas e ir para o lado oposto. Era incrível como todos os ossos estavam encaixados e produziam movimentos tão precisos.

— A menos que já tenha decidido morrer, é claro. – Concluiu a fera, com sua voz ressonante e grave, distanciando-se.

— Eu não decidi morrer! – gritou Lielsen, incapaz de se controlar, fervendo de raiva instantânea e sentindo as lágrimas chegarem.

— Também não decidiu viver. Venha de uma vez.

Controlando-se para não chorar, o rapaz apressou o passo para ir atrás do dragão.

Quando chegou ao lado da criatura, não pôde deixar de gastar longos minutos em admiração.

— Você nunca viu um dragão? – perguntou o objeto de observação, em tom desinteressado.

— Não.

— Precisava ter me visto quando eu estava com pele, carne e tudo o mais.

— O que aconteceu com você?

— Um tal de Jorge apareceu por aqui e não aceitou muito bem a idéia da morte. Descontou em mim.

— São Jorge?

— Santo coisa nenhuma.

Conversando, passaram por pequenas elevações, e por trás delas, distante, Lielsen viu uma bandeira. Só que ela não parecia a bandeira americana. Quando chegou mais perto, viu que era um pano verde com a letra “L” grafada magnificamente, cheia de desenhos e curvas.

— O que isso significa?

— Significa que a lua é sua. Agora contemple o espaço, caro rapaz.

Lielsen olhou para frente e tomou um susto. Estivera tão concentrado no dragão que deixou de prestar atenção nos arredores. À frente dele, no espaço, milhares de asteróides formavam um impressionante cinturão sideral, e além deles pôde visualizar verdadeiros complexos espaciais, com luzes e naves de todos os tamanhos e por todo lado. Estrelas cadentes cruzavam a parte mais alta do cenário; suas fabulosas caudas de fogo eram de uma beleza difícil de descrever.

Tonto com tanta informação visual, tudo o que o adolescente conseguiu dizer foi um “Minha nossa…”

— Ei, garoto, venha aqui. – Chamou uma voz estranha, meio rachada. Lielsen olhou e tomou o segundo susto naquela sala. Um ET, desses que estamos acostumados a ver, corpo cinza, cabeçorra e grandes olhos negros, o chamava. Ele e mais dois dessa espécie estavam sentados num sofá desbotado em frente a uma velha televisão de modelo bastante antigo, daquelas sem controle remoto.

Lielsen olhou em volta, dessa vez focando a lua, e além do imenso esqueleto de dragão que o guiou até ali, deitado perto do sofá, as majestosas asas mortas servindo de cobertor para o corpo, ele viu uma cidade erguida em pleno solo lunar.

Divisou prédios arredondados, tubos, veículos, seres das mais variadas formas e tamanhos passeando pelas ruas e até um mendigo tocando violão encostado no que parecia ser uma espaçonave há muito quebrada e abandonada.

— Como isso é possível? – perguntou, se aproximando mais para poder absorver tudo melhor.

— Sente-se conosco, jovem. – Chamou de novo um dos alienígenas. Mas o jovem estava deslumbrado com a cidade lunar, cheia de construções longilíneas, não muito altas, salvo exceções, ligadas por tubulações de um branco ofuscante e janelas curvilíneas de uma bela cor azul safira. Havia uma ou outra edificação menor isolada, às vezes em tons cinzentos.

E as criaturas que andavam por ali? Lielsen mal conseguia identificar dois espécimes iguais com facilidade. Era necessário perscrutar por um longo tempo antes de ser possível reconhecer padrões naquela miríade de formas, cores, braços, pernas, troncos e cabeças diferentes.

— O garoto está nos ignorando? – perguntou o ET a um de seus companheiros.

— Acho que não. Ele gritou quando te viu. Falei que tu eras feio.

— Ele viu a nós três de uma vez! – retrucou o primeiro alienígena, claramente ofendido.

— Verdade. Nós três somos feios.

Alheio ao papo, o rapaz, como que hipnotizado, foi andando em direção à cidade, passando por trás do sofá velho em que os extraterrestres estavam sentados.

— Rapaz… ô rapaz… não é pra lá que você tem que ir. – Insistiu o primeiro ET.

— Deixa ele. Logo ele arruma um violão e uma boa esquina. – Disse o segundo alienígena. O terceiro continuava compenetrado com o que passava na televisão antiga de vinte e uma polegadas.

Lielsen parou de andar e olhou para os alienígenas. Ainda com estranhamento no semblante, perguntou:

— Então, para onde devo ir?

— No momento, sente aqui e assista um pouco de TV conosco. Vai te ajudar a relaxar, e aí você poderá pensar com mais calma no que quer fazer.

O rapaz olhou para a televisão, como se notando a presença do eletrodoméstico pela primeira vez, e se surpreendeu com o que viu na tela. Em algum lugar da Terra estava acontecendo uma festa junina gótica com a presença de um Papai Noel.

O adolescente enrugou a testa e retraiu o pescoço.

— Os humanos são interessantes. – Sentenciou o primeiro Alienígena.

— É… acho que sim… – Cedeu Lielsen, notando que o fio do aparelho televisor estava ligado numa extensão que seguia até um dos prédios mais próximos da cidade lunar.

— Dragão, o que faço agora? – perguntou o rapaz, se aproximando da enorme besta que, deitada, respirava com serenidade.

— Você pensa. – Respondeu o monstro, em um suspiro. – Se acha que ainda não está pronto para a decisão final, deve seguir adiante e chegar na sexta sala. Ou você pode ficar aqui e ver o que acontece.

— Não é uma decisão fácil.

— E você não tem muito tempo. Eu não posso dar nenhuma sugestão, todavia me parece que a dúvida está muito forte.

— Sente-se conosco, garoto. Este sofá é uma beleza para pensar. – Insistiu o ET.

— Não, obrigado… – falou Lielsen, segurando as lágrimas e se dirigindo para a cidade.

— Cuidado, Lielsen. – Advertiu o dragão. – Se entrar aí pode se perder e não conseguir voltar a tempo. Entrar na cidade lunar é o mesmo que decidir morrer. Está avisado.

O adolescente estacou assim que o dragão acabou de falar. Sentiu sua massiva curiosidade pelo lugar aumentar ao invés de diminuir de imediato, como seria o esperado.

— Eu estou entendendo, você não quer sentar no sofá com três cabeçudos. Vamos, vamos deixar a criança pensar. – decretou o segundo alienígena, levantando e tocando seus companheiros, instigando-os a fazer o mesmo.

— Claro, não me sinto ofendido. – Ironizou o primeiro ET.

Logo o incomum trio estava longe, suas costas diminuindo à medida que se afastavam. Lielsen achou uma desfeita não sentar no bendito sofá e lá afundou.

Ali restava ele, na lua, tendo em sua frente o céu estrelado rajado por asteroides e cometas, inúmeras naves, luzes e bases espaciais gigantescas, verdadeiros complexos urbanos. Atrás dele uma cidade bem em solo lunar. Ao seu lado, um dragão em esqueleto dormitava, as imensas asas repousavam sobre o imponente corpo. A televisão continuava a transmitir a festa junina gótica.

Lielsen não conseguia pensar claramente. Como poderia ele tomar tal decisão? Haveria esperanças para alguém em sua condição? Arriscaria esperar um milagre? Era Deus quem o estava deixando escolher?

Uma coisa era certa: se decidisse viver, viveria melhor. O que poderia acontecer se continuasse com seu modo de vida? Quantas outras existências não seriam arruinadas ou severamente afetadas? Ele não era do jeito que era por mal, ele não era uma pessoa má… e porque estava se culpando, afinal? Não, ele não tinha que achar culpados. Tudo o que devia fazer era tomar uma decisão, e caso essa decisão fosse viver, que vivesse melhor.

Mas o que seria viver melhor? E morrer, seria tão ruim assim?

Lielsen pensou na sua mãe, no irmão, no resto da família, nos amigos… seus amigos. Como estariam? Eles sofreram o acidente juntos.

Sabia no fundo que não teria tão cedo essa resposta. Ainda pensava na questão quando lembrou do semblante desolado que tinha a sua mãe. A tristeza nos seus olhos e a desolação nos seus gestos o moveu novamente ao pranto. Lielsen não queria morrer. Era muito novo. Era muito cedo.

Mas viver daquele jeito… como poderia? Nunca mais tocar a sua guitarra, nunca mais subir no skate, nunca mais jogar seus jogos, nunca mais sequer poder se vestir sozinho. Nunca mais fazer nada sozinho. Seria muito idiota ter esperança em algum milagre médico? Em algum milagre divino? E se, ao decidir morrer, ele estivesse jogando fora a oportunidade de construir uma bela vida e ser feliz?

O garoto abaixou a cabeça, segurando-a entre as mãos. Sentia frio.

Sua mãe o perdoaria? E seu pai, como estaria?

Ele ouviu um bipe contínuo, ritmado, e olhou para a tela da televisão. Nela viu uma linha verde ao sabor dos batimentos cardíacos demonstrados num dos cantos da tela. Soube que era o seu coração que estava registrando cento e dezoito batimentos por minuto. Seu corpo lutava para viver. O que seu espírito faria?

120…124…128…135…139…162.

— Dragão, eu quero voltar, como faço pra voltar?! – perguntou Lielsen, agoniado, levantando do sofá.

— Eu sabia que sua escolha seria ir em frente. – Disse o dragão, se erguendo e olhando com aqueles olhos ardentes bem dentro da alma do garoto.

— Quero prosseguir, disso eu tenho certeza. – Lielsen nunca havia estado tão determinado na vida. – Aonde devo ir?

O dragão se abaixou, de modo que seus ombros quase tocaram o chão.

— Suba em mim.

— Como?

— Poupe o papo clichê, você tem pouco tempo.

Lielsen balançou a cabeça concordando e se lançou em direção ao dragão, escalando-o e arranjando para si um bom lugar às suas costas, agarrado àquele rotundo pescoço. Os ossos eram ásperos e firmes.

— Espero que tenha força nos braços. – Falou o monstro. O fogo nos seus olhos ficou ainda mais forte, de um laranja beirando o vermelho, e tomou toda a sua órbita. Em seguida, com um impulso fenomenal, a besta deu um salto que pareceu ignorar a gravidade lunar e abriu as incríveis asas. Logo os dois estavam rumando para o campo de asteroides.

— Meu Deus do céu! – deixou escapar Lielsen quando eles entraram efetivamente na linha de perigo. Dezenas de cometas praticamente raspavam a dupla, só não os atingindo graças à destreza sobrenatural do dragão.

Ao olhar para sua esquerda, Lielsen mais uma vez arregalou os olhos. Um cometa voava desembalado bem ao seu lado. Sua cauda cósmica fascinante era uma mistura de tons azulados, vermelhos e dourados. No segundo seguinte o cometa ganhou mais velocidade e disparou, se distanciando dezenas de quilômetros.

Entretanto havia algo ainda mais estranho ali.

: — Tem uma porta naquele cometa!!!! – gritou o jovem, incrédulo.

— Exatamente! E temos de alcançá-la! Segure-se!

O dragão bateu as asas com um vigor de impressionar e sua velocidade aumentou quase tanto quanto a do cometa que agora perseguiam.

— UOOOOOOOUUU!!!!!!!!!!!!!!!!!! – berrou Lielsen, uma sensação de pavor o tomou enquanto eles ziguezagueavam entre pedras e escapavam de meteoros que eventualmente iam em curso de choque contra eles. Os olhos do dragão permaneciam fixos no alvo à frente, a luz na cauda da estrela cadente iluminava o rosto dos dois perseguidores.

— Eu vou ficar por baixo dele e você se agarra, escala e chega à porta! – rugiu o dragão.

— COMO É?!

— Você vai conseguir! – urrou, aumentando ainda mais a velocidade.

— NÃO VOU!

O dragão estava indo tão rápido que parecia também um cometa. Escapava cada vez por menos dos meteoros que vinham de todos os lados, costurava as rochas numa insana corrida.

Após pouco tempo o animal lendário mergulhou no espaço.

— Falta pouco!, prepare-se!

Ele se encontrava exatamente embaixo do corpo do cometa e seu esforço para manter a velocidade era visível.

— Agora, Lielsen! Agora! Não conseguirei acompanhar por muito mais tempo!

— Droga, droga, droga, droga! – soltou o adolescente, olhando pra cima diversas vezes procurando onde colocar as mãos. Se desesperou quando percebeu que lentamente o cometa se afastava.

— Eu disse que não consigo agüentar muito mais tempo! Vá agora ou não vá mais!

— AAAAAAHHHHHH!!!! – bradou o rapaz, pulando e segurando-se por pouco na rocha cósmica, que ficou ainda mais rápida assim que ele a tocou.

— Dragão!!! – esganou-se Lielsen, olhando para trás. A majestosa criatura que o havia ajudado estava ainda ia em sua direção, mas sem pressa, num vôo cansado, e já estava minúscula de tão longe.

— Obrigado!!!! – continuou, porém desconfiando que o outro ser não podia mais ouvi-lo. Tecnicamente, jamais os dois poderiam ter se ouvido em hipótese alguma. Concentrou-se em se manter seguro no pedaço de rocha espacial e em recuperar um pouco de fôlego. Escalar não seria a tarefa mais fácil do mundo.

Devagar e lutando contra a pressão, o rapaz foi galgando o cometa. Envolvido pela luz cósmica e sendo constantemente impelido a fazer força pra não ser atirado ao espaço, Lielsen teve que encontrar dentro de si uma determinação que jamais imaginou possuir.

Fazendo careta de dor e esforço, o adolescente foi, centímetro por centímetro, galgando seu caminho até o topo. Quando lá chegou, ficou de joelhos, exaurido. Respirando pesadamente, levantou a cabeça e viu à sua frente a simplória porta de madeira.

Sentindo-se repentinamente renovado, Lielsen levantou e andou até a porta. Ficou parado por uns momentos, olhando a porta, viajando a milhares de quilômetros por hora no espaço, emoldurado pelas estrelas e pela onda cósmica que envolvia o cometa.

Decidido, respirou fundo e entrou.

*

Recife, 2009

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