As Oito Salas de Lielsen – Sala Sete

Uma lufada de vento agradável o acolheu do outro lado. O jovem se via agora num vastíssimo campo verdejante, montanhas faziam fila ao longe e uma majestosa floresta de pinheiro contornava a planície.

Girando no mesmo lugar, Lielsen absorveu a grandiosidade de onde estava. O alívio por ter escapado do maníaco não podia ser expresso. Sons de galopes apressados tiraram-no dos devaneios e ele se voltou ao grupo de cavaleiros.

Os homens o cercaram e seus cavalos patearam nervosamente o solo. Eram aproximadamente doze cavaleiros, todos com cabelos longos e rostos rudes, espadas nas bainhas, alguns com escudos às costas.

O que parecia ser o líder deles chegou mais perto.

“Como assim, eu acabei de sair daquilo ali e já me deparo com isso aqui?”

O homem desceu do cavalo e ficou cara a cara com o adolescente, que não sabendo que expressão colocar no rosto, usou o rosto de pôquer.

: — Você não é deste mundo. – Afirmou o guerreiro, colocando uma mão no ombro do rapaz e curvando um pouco as costas para poder olhá-lo mais diretamente.

— Não, não sou, mas garanto que não quero destruí-lo. Eu vim em paz, passagem rápida, só tenho que achar uma porta e… – os cavaleiros exclamaram tão de repente e tão simultaneamente que o garoto se assustou, quase se engasgando pela fala subitamente interrompida.

: — Ele não é daqui! – disse um

— Então é verdade, não temos escolha. – Queixou-se outro.

— Para onde vamos levá-lo?

— Por que vamos levá-lo?

— Oras, está bem óbvio que aquele portal estranho está destinado a ele.

— Portal estranho? – inquiriu Lielsen, sem poder se segurar.

— Temos uma lenda nesta terra: de tempos em tempos habitantes de outros planos nos visitam com a missão de cruzar o portal. – Explicou o chefe deles, tirando a mão do ombro de Lielsen e se endireitando.

— É só uma história! – estourou um dos cavaleiros.

— Não é, e você sabe; você viu o portal. – Retrucou o líder calmamente, se virando para seu companheiro barbudo que montava um belo cavalo cor de areia.

— Vocês sabem onde está a porta? – emendou Lielsen, mais uma vez sem conseguir ficar quieto.

— Sabemos, mas não será fácil chegar até ela. – Respondeu o líder, voltando a atenção para o visitante.

— Já faz umas duas salas que não é.

— Como?

— Nada.

— Você vai no meu cavalo. – Decretou o líder, olhando com curiosidade para o rapaz. Alguns homens resmungaram ao ouvir a sentença, mas não houve oposição direta. Lielsen, animado com o fato de seus anfitriões já saberem o paradeiro da porta, se esqueceu do óbvio por um instante, mas tão logo lembrou, perguntou:

— Por que você está me ajudando?

— Porque é a coisa certa.

— Relaxa garoto, nem todos aqui são animalescos. – Falou um homem com tranças louras e olhos azuis assim que Lielsen subiu no cavalo do líder. – Melnick, a seu dispor. Roderick Melnick. – Continuou, estendendo a mão.

— Lielsen. Luís Lielsen. – Falou o rapaz, apertando a mão do recém conhecido.

— Vamos, temos de alcançar o acampamento antes de anoitecer. Ei!. – Sentenciou o líder, batendo com os pés no flanco do cavalo em seguida.

Em poucos minutos todos galopavam pelos enormes campos verdes numa formação que lembrava a letra “V”. Lielsen ia na ponta, abraçando as costas do líder dos cavaleiros e experimentando certo medo, pois só cavalgara duas vezes na vida.

Ao final de duas horas repletas de silêncio o grupo chegou num acampamento bem organizado, com amplas tendas e diversas fogueiras. O lugar tinha até uma precária muralha de madeira com direito a postos de vigilância devidamente ocupados.

Melnick Roderick desceu primeiro do cavalo, que logo foi amparado por algum escudeiro. Logo todos estavam no chão e se dispersaram. Outras pessoas chegaram perto para dar uma boa olhada em Lielsen. Os olhares eram desconfiados, cheios de suspeita, porém em vários deles havia parcelas de incredulidade.

O líder pôs a mão no ombro do jovem e falou baixinho:

— Não se preocupe, rapaz, eles apenas não pensavam que a lenda fosse verdadeira.

— E não se assuste com as caras feias, estão todos na verdade morrendo de medo, pois chegar naquele portal não vai ser tarefa fácil, sabe? – disse Melnick, com sua voz animada e despreocupada, cofiando a barba.

— Por que será tão difícil chegar à porta? – questionou Lielsen, sem saber se queria mesmo uma resposta.

— Porque ela foi levada por um bando de mercenários que trabalha para Tenierge Wolf, homem desprezível que domina as terras depois dos nove rios. – respondeu o chefe, tirando a mão do ombro do rapaz e se colocando gravemente à frente dele. – Ele quer que seus magos dêem um jeito de abrir o portal, pois acredita que do outro lado encontrará algo de valor imensurável, como a vida eterna, todo o conhecimento do mundo ou poder ilimitado.

— Talvez as três coisas. – Observou Melnick.

— Ou sabe-se o quê. – Anuiu o líder.

– E não são simples mercenários, são os mais desgraçados bandidos do mundo. Seus arqueiros são lendários, seus espadachins, os mais letais, seus feiticeiros não conhecem escrúpulos e suas bestas são surreais. – Emendou Melnick Roderick, também se pondo de frente para o adolescente. – Não é de se admirar que os homens estejam agindo como frouxos. – Continuou. – Eu também estaria, se frouxo fosse. – E piscou o olho, se retirando em seguida.

— A lenda diz que só aquele que vem de outro mundo pode abrir o portal, e que quem o ajudar será incrivelmente abençoado. – Revelou o líder, pousando a mão nas costas do jovem e começando a andar. Algumas fogueiras foram acesas e as conversas em volta não eram mais do que ruídos amedrontados. Não se ouvia uma risada.

— Não se sabe o que pode acontecer se alguém do nosso mundo abrir o portal, mas se especula que seja exatamente o contrário à benção. – O cavaleiro parou de andar e admirou o horizonte rosado. O sol se deitava. – Uma maldição. – Prosseguiu, tornando a andar, Lielsen caminhava ao seu lado, prestava muita atenção.

— Não sabemos. Wolf jurou há anos destruir nosso reino, e sabe-se lá o que pode acontecer se ele conseguir abrir o portal. – O homem cumprimentou um guerreiro que passou pela dupla com um aceno de cabeça antes de continuar. A fumaça advinda dos troncos queimados já começava a se fazer presente.

— É sabido que quando o viajante do outro mundo entra no portal ele desaparece, e assim fica por eras. – O homem parou de andar de novo, tirou a mão das costas do rapaz e se interpôs em seu caminho, olhando-o com seriedade.

— Isso nos livrará de uma preocupação enorme, além de possivelmente gerar um proveitoso período de paz. – Ele aproximou sua cabeça à do garoto e disse:

— Eu quero paz para o meu povo, Lielsen. Você deve ser alguma providência divina. Minha situação política não é das melhores aqui… eu cometi erros… meu primo, criado como se fosse meu irmão, está praticamente com a coroa nas mãos, só que ele é um déspota, um ator que apenas finge se importar com todos para ganhar simpatia, e o meu pai, meu próprio pai, parece ser o mais ludibriado.

— Minha partida deste mundo parece que fará bem a todos. – Constatou Lielsen sorrindo, meio perdido.

O homem segurou os dois braços de Lielsen perto dos ombros e deu uma sacudida no garoto, sorria.

— O que é uma pena, pois sinto força no seu coração.

— Meu nome é Garath. – Disse, antes de se afastar do rapaz. – Fique à vontade, arrume algo pra comer, depois mostro onde você dormirá. – Completou o príncipe Garath, andando para longe de Lielsen, tirando da cintura bainha e espada.

Lielsen balançou a cabeça afirmativamente enquanto se virava. Tudo o que queria era descansar e tempo para pensar sozinho.

: — Imagino que a fome assalte seu estômago. – Disse Melnick, surgindo em sua frente com uma enorme coxa de javali nas mãos. O jovem salivou e fixou os olhos no alimento.

— Tudo bem, eu trouxe pra você mesmo, oras. – Entregou ao rapaz o pedaço de carne.

— Tudo em você diz que é hora de ficar sozinho um pouco, procure descansar. Amanhã iremos atrás de sua porta.

— Obrigado. – Agradeceu o rapaz, com a boca cheia. Roderick sorriu e o deixou em paz.

Lielsen olhou para os arredores tentando encontrar um lugar sossegado, alheio aos olhares desconfiados do povo.

Demorou pra perceber o quão cansado estava. Seus ossos latejavam e suas pernas clamavam por uma pausa. Afastado de todos, sentado, encostado num dos muros de madeira do acampamento, Lielsen terminou de comer quieto, sem conseguir clarear as ideias muito bem. Deixou a cabeça bater de leve na madeira e fechou os olhos. Tinha a boca seca, mas não levantaria pra pegar água. Estava esgotado.

Ele ouviu passos se aproximando mas não se moveu, não fez nenhum esforço que denotasse vontade de interação.

: — Foi uma longa jornada, não foi? – o adolescente reconheceu a voz do príncipe Garath, e ainda de olhos fechados, respondeu num murmúrio:

— Graças a Deus já está chegando ao fim. A próxima sala é a última.

— Sala?

— Deixa pra lá. – Garath sentou ao lado do jovem e Lielsen sentiu algo frio tocar-lhe o braço. Abriu o olho e viu que era um copo de latão contendo água. Lielsen pegou o copo sentindo um peso no coração. Na quinta sala ele havia decidido que continuaria indo em frente, mas a decisão principal ainda não tinha sido tomada. De alguma forma ele sentia que precisaria tomá-la naquela noite, antes de partir em busca da porta. Após iniciada a aventura, de manhã, ele não mais teria tempo pra pensar adequadamente, e uma vez tendo pisado na oitava sala não tinha mais volta, já que ele não sabia o que encontraria: podia ser um ambiente que não oferecesse espaço pra pensar, como a sala passada.

Sentia que era a última chance pra decidir direito o que fazer.

Garath levantou e disse algo sobre voltar ali mais tarde, para mostrar ao garoto onde ele dormiria. Enquanto Lielsen bebia a água, os olhos novamente fechados, começou a pensar na sua triste decisão. Não se conformava, ninguém devia ser obrigado a tomar uma escolha dessas.

Um peso nos ombros que chegou até o coração fez ele perceber a mais dura verdade. Por mais cruel que fosse aquela decisão, ele estava grato por poder tomá-la. A culpa sobre o que quer que fosse acontecer não poderia recair sobre ninguém mais; era sua vida; sua responsabilidade.

Horas se passaram sem ninguém chegar perto do rapaz, ele parecia emanar uma aura de solidão.

Lielsen pensou furiosamente, pensou como jamais havia pensado em toda sua existência, e pouco antes de praticamente desmaiar de sono e cansaço, chegou num veredito.

— Vamos lá, preparem-se, eu quero todo o mundo pronto em meia hora! – berrava Garath n’algum lugar do lado de fora. Lielsen acordou assustado e estranhou o local em que estava, uma tenda. Certamente alguém o havia posto lá durante a madrugada.

Saindo afobado de lá, foi saudado por raios dolorosos de luz estelar. Franzindo o cenho incomodado com o impacto da luminosidade, o rapaz seguiu a direção da voz de Garath, desviando de guerreiros apressados que se locomoviam desordenadamente carregando armas ou puxando animais.

Encontrou o príncipe montado em seu esplendoroso cavalo e já pronto para partir.

— Garath! – chamou Lielsen, fazendo uma viseira com a mão.

— Há um cavalo pra você, Lielsen. – Disse o homem. – Estava com pena de acordá-lo. Que bom que acordou sozinho.

Lielsen balançou a cabeça afirmativamente, pensando que não tinha acordado sozinho.

— E onde está o cavalo em que vou?

— Melnick o está trazendo. Ah, pegue isso. – Garath desafivelou de seu cinto uma espada curta embainhada e arremessou-a para o adolescente.

— Eu não sei usar espada. – Disse o jovem, pegando desajeitado com as duas mãos a que lhe fora atirada.

— Certamente hoje aprenderá. – Falou Garath esporeando o cavalo e indo à face norte do acampamento.

Lielsen desembainhou a arma e admirou-a. A lâmina era curta e robusta, certamente precisa e letal, e o punho era revestido com um grosso couro escamado verde escuro.

— É uma arma muito eficiente. – Lielsen levantou o rosto e se deparou com o simpático Melnick. Ele estava segurando as rédeas de um musculoso cavalo marrom.

— Este é o seu. – Disse, passando as rédeas para as mãos do rapaz. Melnick suspirou e olhou para o adolescente, preocupado.

— Escute, Lielsen… não importa o que aconteça, concentre-se no portal. Basta que você entre. O seu alvo é aquela porta. Foque-se nisso e deixe o resto por nossa conta.

— Certo. – Respondeu o garoto, inseguro. Estava nervoso demais, nervoso por tudo. E se a missão não fosse bem sucedida? O que haveria na oitava sala? Por que era tão doloroso e ao mesmo tempo tão necessário seguir adiante?

Ele sentiu uma mão firme no seu ombro e olhou para Melnick.

— Eu não imagino como isso está sendo pra você, mas seja forte. – Falou o guerreiro ao notar a lágrima que escorria pelo rosto do rapaz e perceber que Lielsen tremia.

O homem deixou Lielsen sozinho.

O rapaz colocou a espada na cintura e alisou o massudo pescoço da montaria. O cavalo pateou o chão, amigável, e bufou.

Com um sorriso melancólico, o adolescente montou na besta, meio desconfiado, pois pouco entendia dessas coisas, todavia conseguiu conduzir bem seu novo companheiro até onde estavam todos.

Quando Lielsen chegou perto do grupo que cercava Garath na saída do acampamento, parou junto aos outros pra ouvir o que o príncipe falava:

— Todos vocês estão cientes do que pode acontecer! Estamos perto de Wolf, adiantados, na verdade. Se fizermos tudo direito conseguiremos que o nosso jovem forasteiro atravesse o portal e siga seu destino. Isso significa o bem do povo, o bem de vocês!

Os guerreiros não pareciam muito entusiasmados e apenas um ou outro brado de concordância foi ouvido.

— Por nossas famílias! – continuou Garath, enérgico. Essas novas palavras foram saudadas por uma morna recepção. Lielsen, arfando de ansiedade, um tanto fora de si, abriu caminho pelos combatentes e foi se postar ao lado do príncipe… essa atitude causou um estranhamento geral.

— Agora, ei vocês, prestem atenção aqui! – iniciou o rapaz, com a voz oscilante, o coração batendo tão forte que doía.

— Eu preciso chegar naquela porta custe o que custar, e eu entendo que vocês não queiram arriscar suas vidas por alguém que nem conhecem e por causa de lendas antigas… sendo assim… bem… sendo assim, eu peço a ajuda de quem puder ajudar… sabe… mas só quem quiser, eu não quero ninguém se arriscando por mim … – ele se voltou para Garath. – Príncipe Garath, sei que o problema da porta é bem maior do que eu pra você e seu reino, mas esta é a minha vida, aquela porta está ligada diretamente a mim, e eu tenho de chegar nela a todo custo… queria que fosse da melhor maneira.

— O rapaz está certo! – urrou Melnick, indo à frente da turba também. – Se prosseguiremos, que venha apenas quem tiver o coração inclinado pra isso! E a quem vier, digo que conseguiremos, pois não entraremos em batalha derrotados!

O inusitado discurso de Lielsen mais a interferência de Melnick serviu para inflar ânimo em todos os presentes, que pareceram envergonhados de suas atitudes anteriores. Gritos de “vamos!” começaram a ser ouvidos. Garath sorriu em aprovação e lançou um breve olhar de agradecimento à dupla inesperada.

Partiram, e o sol lançou um brilho especial a todos os quarenta cavaleiros da comitiva de Lielsen.

Não dá pra saber ao certo quanto tempo passaram cavalgando naqueles vastíssimos campos emoldurados por florestas de pinheiros e montanhas, mas quando chegaram a um desfiladeiro e começaram a ladeá-lo, diminuindo a velocidade para um trote cauteloso, ficou claro que o alvo estava perto.

Roderick Melnick chegou perto do adolescente e disse:

— Wolf não está longe. Conseguimos adiantar a rota dele e faremos uma emboscada. – Lielsen notou que os homens estavam desmontando e batendo nos quartos dos cavalos, dispensando-os. Duas dúzias de homens espalhados começaram a preparar seus arcos de aspecto mortífero; alguns desceram o desfiladeiro e subiram em árvores nas encostas. Lá embaixo, uma passagem margeando um caudaloso rio servia de trilha para os viajantes, trilha que seria usada por Tenierge Wolf e seus homens.

Melnick desceu de sua montaria e Lielsen entendeu que devia imitá-lo. Quando os dois já haviam dispensado os cavalos, Garath veio andando na direção de ambos.

— Lielsen, o portal. Vá para ele como se o mundo em volta não existisse.

— Eu sei, príncipe. – Retrucou o jovem, muito nervoso.

Os outros guerreiros desembainharam suas espadas e também foram tomando posições diversas pelo ambiente. Garath foi assumir seu posto e Melnick também, não antes de lançar um encorajador e sorridente olhar ao adolescente. Lielsen respirou fundo, e agachado na grama alta, encoberto por ela, esperou.

Poucos minutos depois, o tenebroso grupo de Wolf e seus asseclas se tornou visível lá embaixo. Eram homens notavelmente habilidosos que cavalgavam com calma e elegância. As roupas negras, que mais pareciam fazer parte do ar, os cavalos imensos com olhos azuis, além de dois gigantes armados com maças proporcionais a seus tamanhos, um pássaro de penas escuras com bico retorcido, prateado e ameaçador no ombro de um deles, davam todo um clima sinistro à comitiva.

No centro dela, uma luxuosa carruagem cujas pequenas janelas iam cobertas d’uma bela cortina vermelha, com um homem de túnicas negras e douradas em cada lado, e uma criatura de contornos escassamente humanos, cheia de pelos, garras retas sujas e dentes arreganhados em cima entregava sem cerimônia onde estava o que Garath e seus homens, sobretudo Lielsen, desejavam.

O rapaz limpou a mente, tentou se concentrar apenas em entrar na carruagem, onde provavelmente a última porta esperava.

Os passos dos dois gigantes tremiam a terra, e mesmo sabendo que o que estava pra ser feito precisava ser feito, Lielsen se perguntou se era mesmo uma boa idéia atacar tão nefando conglomerado. Quando o primeiro som de flecha cortando o vento foi ouvido, o garoto soube que havia começado.

Um dos cavaleiros de Wolf tombou, morto, a flecha firmemente cravada na têmpora.

A pequena horda embaixo se esparramou e os magos na carruagem ergueram um campo de força em volta do veículo enquanto mais cavaleiros inimigos tombavam mortos.

Os gigantes, enfurecidos, desataram a correr na direção do desfiladeiro, e a ameaçadora ave que estava em cima do ombro de um deles alçou vôo, indo direto para cima dos guerreiros de Garath que se encontravam na parte de cima do desfiladeiro, no planalto.

Um tremor forte de terra foi sentido. Os dois gigantes golpearam com toda a força o paredão do desfiladeiro, e com isso conseguiram derrubar alguns arqueiros de suas árvores e de outros lugares, fazendo-os cair rolando bem perto dos pés dos monstro enormes, que os pisaram sem hesitar e fizeram surgir uma pasta de ossos, sangue e carne.

Os outros guerreiros de Wolf iniciaram escalada a fim de travar combate com os homens do príncipe, e os arqueiros do inimigo também tomaram posição. A ave negra singrava os céus acima dos campos e avançava ocasionalmente contra os guerreiros adversários, que, treinados, protegiam-se com o escudo.

: — Lielsen! A porta! – gritou Melnick de onde estava, já esgrimindo contra um dos homens de Wolf.

Como que desperto de um transe, Lielsen se lançou loucamente desfiladeiro abaixo, escorregando pelas pedras. Quando chegou ao chão, desembainhou sua espada e correu desvairadamente para a carruagem. Homens de Garath também haviam descido e o combate às margens do rio era intenso, flechas voavam para os dois lados e cavalos corriam assustados ou caíam mortos. Inclusive os da carruagem. Para evitar um dano maior, o cocheiro os havia soltado e o carro permanecia parado no meio da cena.

Todos pareciam alheios à Lielsen, até mesmo os gigantes, mais ocupados em tentar derrubar e esmagar oponentes. Todavia o rapaz não havia passado despercebido para o monstro no topo da carruagem, que com um pulo bestial se jogou em cima do adolescente; Lielsen instintivamente esticou o braço que segurava a espada pra frente, sentindo em seguida uma grande pancada e caindo de costas no chão com o monstro sobre ele.

O monstro jazia morto, Lielsen havia cravado a espada até o cabo em seu coração e ele agora repousava inerte sobre o jovem.

Desconfortável com todo aquele sangue pegajoso, Lielsen tirou de cima de si o cadáver do inimigo, empurrando-o para o lado, e tentou tirar do tórax dele a espada, mas sem sucesso, parecia que havia ficado presa em alguma coisa.

A situação parecia feia para o lado do príncipe Garath e Lielsen notou que não tinha mais tempo. Começou a correr de novo até a carruagem, e quando chegou perto viu que os magos estavam de olhos fechados, concentrando-se na manutenção do campo de força, que aliás, estava se mostrando muito eficiente, pois toda flecha para ali atirada era rebatida quebrada.

Com medo, o garoto se escondeu atrás de uma árvore, pensando como conseguiria atravessar um campo de proteção tão eficiente.

Então, por cima do ardoroso clamor da batalha, veio a voz de Melnick:

— Lielsen! Você tem sangue de um guardião na sua roupa! Passe o campo de força!

O adolescente olhou e viu Roderick cravar sua lâmina no peito de um inimigo. O rosto já coberto de sangue e demonstrando acentuada fadiga.

Lielsen não pensou duas vezes e voltou a correr, saindo de trás da árvore. Foi pelos fundos da carruagem, atravessou a barreira como se ela lá não estivesse e pulou no veículo, agarrando-se em um apoio traseiro perto da porta. O mago que ali ao lado estava abriu os olhos, assustado, mas Lielsen já havia se aprumado e fora mais rápido: agarrou-o pelas vestes e jogou-o no chão.

Em seguida, o rapaz abriu entrada da carruagem com um chute, de modo que a tranca caiu, quebrada. Lá dentro era mais espaçoso do que parecia de fora, e bem na sua frente a última porta esperava pra ser aberta. No entanto, antes de avançar pelo ambiente aveludado o garoto encontrou um obstáculo.

Uma figura velha e cadavérica, exalando um terrível odor de putrefação, trajando andrajos, porém com certo porte e diversas jóias reluzentes, pôs-se em sua frente.

: — Este portal me pertence! Intruso! – disse o velho, com sua voz asquerosa, já levantando umas das mãos de modo que a palma ficasse voltada para o jovem; um torvelinho escurecido ia se formando ali.

Lielsen fez uma expressão de raiva e severa impaciência antes de socar Tenierge Wolf bem no meio da fuça.

: — Eu vou entrar, seu velho malvado.

Sem hesitar, Lielsen entrou na última sala.

*

Recife, 2009

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