O Desodorante

O homem magro, descamisado, pai de sete filhos, a barba rala branca e os cabelos crivos, parou diante da pia do banheiro modesto, de azulejos azuis, ocupando não mais do que três metros quadrados, pôs no cós das calças as mãos e danou a franzir a testa, consternado. Pasta de dente, o sabonete bem gasto, fininho que nem sola de andarilho, as frescuras da esposa, o seu desodorante… É. Rapaz, tinha algo errado com aquilo. Não havia sido no canto esquerdo da farmácia de espelho embaçado que ele tinha deixado o desodorante, não. Tinha deixado no meio.

Seu Alcides pegou o produto e conferiu; estava destravado!

“Ah, mas alguém usou meu desodorante. Alguém usou meu desodorante e eu já sei até quem foi.”

Saiu do banheiro e fez o breve percurso no corredor estreito da casa até a sala miúda, onde o filho adolescente, a esposa e suas duas filhas pequenas, as gêmeas do cão, como ele as chamava, assistiam Sessão da Tarde.

O homem parou bem na entrada da sala, subiu as mãos pra cintura, fazendo asas com os cotovelos, e assumiu um ar danado de sério, olhar duro, desses que chegam na alma de um cidadão mais desavisado e a estapeiam.

: – Reginaldo. – Invocou, baixinho. A família permaneceu alheia à sua presença.

– Ô, Reginaldo, seu mouco dos infernos!

– Vixe, homem, pare de ser assim! – Enfartou Marília, sua mulher, pulando do sofá. As gêmeas do cão continuaram saboreando sabe-se lá o que a criatividade da dona de casa havia trazido ao mundo.

– Que é, pai? – retorquiu o jovem, olhando de soslaio para o velho, sentado no sofá desbotado. Fora vermelho, o sofá, agora era rosado.

– Você usou meu desodorante?

– Usei… o meu acabou e a gente só vai fazer feira semana que vem.

Seu Alcides engoliu em seco, a mandíbula mexeu. Controlou-se antes de falar:

– O teu acabou?

– Acabou.

– Quando?

– Ontem. – Dona Marília saltava os olhos de um pra outro, angustiada.

– E por que não disse?

– Por que não ia adiantar, a gente nunca tem dinheiro.

– E tinha que usar o meu.

– Eu ia ficar fedendo?

– Usou o meu, né, moleque? – as palavras saíram rasteiras, serpentes pelo chão de cimento batido.

– Alcides, homem, é só um desodorante, e o menino usou uma vez só. – Rogou Marília.

– Não, mãe, vou usar amanhã também. Vou ficar fedendo, não. – As gêmeas riram baixo.

– E nem pede, o desgraçado, vai metendo a mão… – continuou Alcides.

– Homem, acalme os nervos aí. – Pediu a mãe.

– Vai bater em mim por que usei o desodorante, pai?

Alcides retirou-se do limiar da sala, se escafedeu às vísceras da casa e voltou depois gritando, revólver em punho:

– Meu desodorante, seu merda! O que tá pensando da vida, diabo do cão?!

– Meu Deus, Alcides! – berrou Marília. As gêmeas gritaram, uma correu pra fora de casa, a outra se jogou atrás do sofá; um copo quebrou. Reginaldo levantou num pulo e encostou-se na janela.

– Pai, pai, pai, pai, pai,pai!

– Tem disso não, agora é pei, pei, pei!

– Alcides!

Os tiros reverberaram pela sala minúscula. Milagrosamente, Reginaldo dera um jeito de girar pela janela e já ia inacreditavelmente longe.

:– Volte aqui, infelicidade! Era meu desodorante! – o velho saiu pro meio do mato atirando na direção do filho. Os cachorros latiram e pássaros partiram das árvores.

– Ô, merda! – bramiu o homem, quando o tambor esvaziou.

– Não use mais meu desodorante! Não pegue em mais nada meu! – urrou para a natureza.

Reginaldo só retomou contato com a família quando o pai morreu.

*

Bragança Paulista, 2016

Imagem: Pixabay/Pexels

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