O Herói da Sé

Várias pessoas cruzam a Praça da Sé todos os dias, indiferentes aos pobres coitados estirados ao chão, alheias à beleza sóbria da catedral, cegas aos santos de pedra. Todo o universo da praça é somente chão a ser vencido em carreiras cotidianas.

Existia um sujeito, porém, que consumia a maioria dos seus dias perambulando e repousando pela região, e não porque não tinha lugar para ir, mas porque gostava dali, via o povo de perto, vigiava os malandros, escutava uma missa ou outra, aproveitava as árvores e o espaço, enfim, era atingido por uma poderosa energia vital que ele não encontrava em nenhum outro ponto da colossal capital de São Paulo.

O nome dele era José.

José se ajeitou no seu cantinho pra comer a coxinha ainda quente que uma alma caridosa lhe havia trazido naquela fria manhã paulistana. A alma caridosa era seu Agenor, sempre que passava pela Praça da Sé ele cumprimentava o pedinte ou perguntava como iam as coisas, se ele aceitava um salgado ou um café. Seu Agenor dera a José o último cobertor após passar cedinho e vê-lo tiritando encolhido às portas do templo, com a cabeça meio enterrada nos joelhos e os olhos aguçados espiando aquele mundo tão hostil. Quando recebeu o cobertor, José não soube o que dizer, senão rogar bençãos ao seu filantropo. Rogou as bençãos olhando firme nos olhos de Agenor, falando baixo, naquela voz tão combalida de angústia. Enrolou-se no cobertor e o calor que sentiu não veio só do pano, mas do amor humano, que mesmo parecendo tão perdido, ainda existia.

José não tinha mais aquela coberta, homens da prefeitura levaram-na embora justamente durante o inverno. Ele tinha agora era a coxinha, que mordia e mastigava com grande satisfação.

Enquanto comia, esquecia todas as suas angústias, não lembrava do seu passado destroçado e não pensava em seu futuro inexistente.

: — Que Deus abençoe seu Agenor, viu? — falou sozinho, ao término da refeição.

Catou sua garrafinha d’água e tomou uns goles comedidos enquanto via na praça um nóia perturbando uma moça que só queria seguir caminho. O sujeito puxava o braço dela de leve e roçava na sua bolsa a tiracolo; e o resto do povo passava em volta como se nada acontecesse, os policiais se faziam cegos. José se revoltava co’aquilo.

: — Bando de cagão capado. — Resmungou.

Já achava que precisaria interceder quando o viciado desistiu e foi andando muito rápido para longe dali.

José respirou fundo, se sentou de novo e só descansou depois de perder aquele sujeito de vista.

Mais tarde, quando começou o serviço religioso, José não entrou na igreja, ficou meio sem jeito na escadaria aceitando, com vergonha agradecida, as moedas que alguns fiéis atiravam aos seus pés ou à sua mão estendida. Alguém parou, olhou nos olhos dele e disse palavras amáveis, retribuídas timidamente, mas houve também alguém que, sem verter um centavo, o admoestou a não gastar tudo com cachaça.

E assim José ia vivendo nas cercanias da Sé. Às vezes ele conversava com outros pedintes, com policiais, mas gostava de ficar recolhido em si próprio n’alguma reentrância da catedral. Os nóias que passavam perdidos, como se enxergassem sem ver e ouvissem no mundo o caos acalentado dentro deles mesmos, não nutriam simpatia pelo mendigo; achavam-no, nas raras ocasiões que conseguiam achar conscientemente qualquer coisa, irritante e intrometido.

É que José, quando ia por perto, desencorajava a malfeitoria dos marginais. Quando podia, até se chegava num e noutro pra repetir, a seu modo, os sermões que ouvia na Sé, quase sempre entrelaçados aos sermões que ouvia da família nos anos que não voltariam. Ele se compadecia profundamente daquelas criaturas miseráveis, de suas vítimas e das famílias envolvidas.

José nunca esqueceria a cena que se montou diante dele numa tarde de novembro.

Uma mulher, coitada que só ela, se aproximou, já sem conseguir segurar direito o choro, d’um rapaz chupado, absolutamente derrotado, enrodilhado aos pés de São Paulo. Ele só tinha a bermuda imunda, seu corpo avariado mostrava ilhas de sujeira encardida, seus cabelos haviam se fundido em nó impermeável, e seus olhos não viam mais nada. A mulher se acocorou perto daquilo, pelejando em vão contra as lágrimas, trêmula, desajeitada, com a bolsa a escorrer-lhe do ombro em assomos de teimosia, e balbuciou palavras partidas, forjadas no profundo desespero melancólico do mais sincero arrependimento tardio. Eram palavras carinhosas, encorajadoras e conciliatórias: “Anjinho, levanta daí, vamos pra casa.”

A resposta não veio. A mãe dilacerada não sabia o que fazer com as mãos, resolveu acariciar a testa do filho; a bolsa tombou e ela não se ajeitou mais, ficou ali, chorando baixo, cariciando o rapaz. Deitou ao lado do filho, tomando-o nos braços.

Um guarda se abeirou e se abaixou; chamou o SAMU.

José viu tudo aquilo muito triste, meneando a cabeça de modo quase imperceptível. Lembrar daquilo dava nele um negócio ruim, José levava logo a mão ao coração e massageava a região.

: — Por que tanto sofrimento, meu Deus? Eu não entendo. — Questionava às vezes, firme e sereno, contemplando a imagem de Nosso Senhor Jesus Cristo num horário mais vazio da catedral.

: — Eu queria que o Senhor me dissesse.

Numa das vezes ele teve a forte sensação de que logo compreenderia.

Um dia José notou na praça um rapaz com todo o jeito de assaltante, andava d’um lado a outro, desconfiado, mirando de esguelha os passantes. José sentou ali perto e ficou observando, fingindo esmolar com a mão estendida, meio cabisbaixo. O rapaz suspeito o ignorou completamente, continuou com sua ronda marcada. José viu, escapando do bolso esquerdo do sujeito, a ponta da coronha d’um revólver.

Apreensivo, o mendigo sentiu sua respiração mais pesada, toda aquela situação podia dar muito errado, porém ele relaxou após uns minutos, o rapaz rodava demais, hesitava demais, e suava no frio. Duas ou três vezes já tinha feito menção de ir embora dali e se detivera. José o chamou com um chiado.

: — Não faça isso, meu filho. Você tem casa? — o rapaz, que havia se virado num sobressalto de gato, respondeu nervoso:

— Não é da sua conta, mano, fique suave.

— Você tem casa? Ter casa pra voltar da rua é uma benção tão grande, meu filho, é tão bom. — O rapaz quase disse algo, permaneceu calado. Observou os arredores e depois voltou as vistas a José.

— Não faça isso, meu filho. — Pediu o mendigo.

— Porra, meu… Velho metido… — saiu às pressas dali.

— Vá com Deus. — Suspirou José, lembrando da própria família. Lembrou até d’um tio que costumava dizer, quando pêgo em flagrante sacanagem, que ninguém prestava mesmo e o mundo era isso aí, que ninguém se fizesse de santo pra cima dele.

José tinha casa para voltar, mas vivia como se não tivesse, pois suas eventuais entregas ao álcool causavam brigas e ele não gostava de ser recriminado por gente que não prestava. Evidentemente, ele era injusto com a família, e quanto mais o tempo passava, mais ele se apercebia de seu pecado e mais se enchia d’um arrependimento doído, ramificado por todo seu espírito desde o centro de seu coração. Mas agora era tarde, pensava, o pedinte tinha vergonha de bater na porta de casa e pedir entrada.

Imaginava que faria isso um dia, embora uma espécie de macabra faísca premonitória mordicasse aquela nobre e nascente vontade.

Houve um dia em que a intervenção de José no curso dos acontecimentos criminosos não acabou muito bem para ele próprio. Dias antes da situação derradeira, o mendigo havia sido humilhado dentro da igreja. Enquanto rezava, um homem arrumado disse-lhe que Deus não atendia prece de vagabundo preguiçoso.

Aquelas palavras atiraram o pobre mendigo numa inútil espiral de reflexões melancólicas que o levaram a agarrar a primeira garrafa de pinga que seus trocados conseguiram pagar e a se encolher num canto à entrada da igreja bebendo e segurando o choro.

José pedia clemência a Deus, garantia que não era tão preguiçoso e vagabundo assim, que se arrependia fortemente de todos os seus erros, que até tentaria mudar se entendesse o sentido das coisas. O que ele via desde cedo era gente comendo gente, malandro tirando vantagem, passos apressados à toda parte, desespero, mesquinharia, tiro, humilhação, incontáveis repetições estéreis, e no meio de tantos vilões e perdidos, ilhas de bondade e determinação firmemente alicerçadas em qualquer coisa intangível, pessoas caridosas e inspiradoras. Mas Jesus Cristo!, essa turma parecia tão pequena e esparsa que a mera existência dela enchia mais ainda a confusão de José.

Seria o sofrimento no mundo fruto deste não prestar generalizado invocado por seu tio? Se as cidades, os governos, as instituições, se tudo, enfim, está abarrotado de gente que não presta, é claro que será grande o sofrimento geral.

E por aí, entre um trago e outro, José ia pensando, convencido de que não prestava, mas igualmente convencido de que havia no planeta gente que prestava menos do que ele, por isso se atrevia a implorar misericórdia e sugeria que, se Deus quisesse e ele tentasse, podia ser um pouquinho melhor; só um tantinho, achava que jamais teria a capacidade de ser uma daquelas almas fascinantes e elevadas cuja presença tanto o confundia. Ademais, para quê ser uma dessas criaturas agraciadas, senão para sofrer mais intensamente diante do Mal existente?

À medida em que a sonolência se aproximava suas idéias ficavam mais pastosas, e assim seguiu até ele restar com aquela cara abobada, os olhos quase fechando; Ele nem reconheceu seu Agenor, que acenou de longe numa de suas idas e vindas.

Chovia uma chuva estranha naquela manhã, ela caía ora tênue, ora translúcida, ora caudalosa aos borbotões, José até pensou se aquilo não era Jesus chorando como havia chorado por Jerusalém. Depois se repreendeu pelo pensamento, Deus não chorava mais, e se Seus lamentos fossem vertidos em água sobre nós, não haveria mais terra seca no planeta; quiçá o próprio sol já estaria apagado.

Mas que melancolia danada era aquela logo de manhã? As pessoas que transitavam pela praça da Sé às pressas e encharcadas afiguravam-se como espectros diáfanos; Ebóreas cortinas do tecido mais fino oscilavam em torno das árvores, o chão se movia sutilmente. Os relâmpagos, mui espaçados, brilhavam intensamente, chicoteavam a vista.

Invadido por uma miríade de sensações novas e familiares que rapidamente foram se cristalizando em seu espírito, José não notou imediatamente a inquietação às portas da catedral; um homem armado fazia uma coitada de refém, e seus olhos gritavam raiva e frustração. Que ninguém se enganasse, ele era capaz de atirar.

Policiais tinham se posicionado no perímetro e tentavam demover o criminoso daquela violência. Foi neste ponto que José reparou na situação, e ele se compadeceu enormemente da mulher ameaçada. Viu no rosto dela todas as poucas esperanças que tinha despedaçadas, e viu o peso amargo dos arrependimentos contorcer toda aquela estrutura tanto pisada pela vida sempre difícil.

José não pensou duas vezes — talvez nem tenha raciocinado –, e se lançou ao bandido, que até então ignorava sua presença. O bandido reagiu no mesmo instante, afrouxou as garras na pobre coitada e disparou contra o mendigo. Átimos após seu disparo, foi alvejado pela polícia.

Os dois homens caíram às portas da igreja. A mulher, que tremia e chorava, logo era amparada por um sargento. A catedral permaneceu impávida e solene; mais um drama do mundo havia se incorporado aos seus ecos interiores, e por ali subia aos céus, clamando por justiça.

Seu José seguiu sua tardia vocação de herói.

Ele agora descansa junto ao Senhor, à sombra da Árvore da Vida.

*

Bragança Paulista, 2020

Imagem: Wikipedia

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