A Menina

“Anali. Anali…”

A garotinha abriu os olhos e puxou mais para junto do corpo o cobertor estampado por serelepes elefantes e patinhos alegres. A chuva batia gentilmente em sua janela e escorria banhada pelo luar. Rodolfo, seu sapinho de pelúcia, foi apertado embaixo das cobertas. O quarto, mergulhado em penumbra, se anuviou com pesar palpável e a temperatura caiu devagar. O frio recém instalado tocou as bochechas da menina e se arrastou até as têmporas da criança, contornando, em seguida, seu olhos, ramificando-se pelos cílios. Anali fechou os olhos e sentiu nas pálpebras cerradas o toque suave e descarnado do além.

A respiração ficou tensa, enevoados volteios escapavam expelidos pelas narinas infantis, e uma vez mais, a voz se fez ouvir:

– Anali. Anali…

Era uma voz resignada, de menina, fraca, difícil de localizar. Na primeira noite em que surgiu, parecia vir do corredor; agora Anali não conseguia precisar a localização do chamado. Não queria saber de onde vinha, não queria pensar no assunto. Desde a última semana dormir havia se tornado um desafio, e justo naquela noite, quando a garotinha já alimentava a esperança de não ser mais incomodada, tiravam-lhe o sono outra vez.

O frio no entanto era inédito.

: – Anali. Anali…

Ela não responderia. Respondeu na primeira noite e se arrependeu, porque des então cresceu dentro dela uma expansiva sensação de desconforto e insegurança.

A menina ia embora, bastava esperar e ela partiria.

: – Anali. Anali…

Anali puxou o cobertor qual casulo e começou a pensar nos desenhos que gostava de assistir enquanto seu pequeno corpo esquentava. O ar se elevou, dispersando o pesadume, clareou o negrume e Anali soube que, naquela noite, não seria mais incomodada. Mesmo assim, a garota não se aventurou fora das cobertas nem quando o suor formou sobre ela uma camada pegajosa e a respiração restou cortada por ausência de oxigênio suficiente.

Finalmente cedeu, refrescou-se com a brisa que parecia afagar-lhe, apaziguadora, as faces brilhantes.

Tudo estava em paz.

Na mesa do café, fartamente preenchida, a mãe quis saber o motivo da falta de apetite da filha e obteve como resposta:

– Não dormi bem. – Examinava as ilhas de trigo na tigela de leite.

– Por quê?

– Porque. – Disse simplesmente.

– Anali, o que está acontecendo? ela mexeu o desjejum com a colher, indiferente.

– É alguma coisa na escola?

– É.

– O que aconteceu na escola?

– Sei lá, mãe.

– Termine de comer, vou tirar o carro.9

Anali não pretendia falar de suas experiências noturnas com a mãe. Os cabelos loiros, sempre presos num longo rabo de cavalo, e os olhos que estudavam cada parte dos seus com inquietude verdejante assustavam-na. Sempre tivera medo da mãe, mas a paúra medrara após as últimas madrugadas.

A garota não contava para a mãe o que acontecia não por achar que ela não ia acreditar, mas por, estranhamente, temer sua reação.

No carro, durante o caminho, Anali ficou calada, imóvel, contemplando com atenção as mesmas ruas pacatas pelas quais passava quase todos os dias. Mamãe tentou conversar mas a criança não deu importância e o curto trajeto foi feito em silêncio.

Após a aula, no retorno, a menininha se portou como na ida. Não houve qualquer tentativa de diálogo.

À medida que o dia transcorria, a ansiedade da garotinha aumentava. Seu coração bateu mais rápido, e temendo, viu, da sala, onde estivera sentada no tapete vendo uma animação com seus bichinhos de pelúcia, o céu ir avermelhando e a noite cair. Engoliu em seco e não conseguiu desgrudar os olhos das portas de vidro até tudo estar escuro, alheia aos barulhos que sua mãe fazia na cozinha. A rotina da casa era bastante fixa, e sua mãe, após trabalhar o dia todo em seu negócio online, preparava o jantar. Anali já não comia direito havia dias e decidiu tentar se alimentar bem ao ouvir o conhecido chamado para a refeição.

À mesa, devorou com gosto seu sanduíche.

: – As coisas estão melhores na escola? – os olhos da mãe analisaram cada ponto do rosto da filha.

– Estão.

– Que bom.

Por alguns momentos, Anali havia esquecido de seus tormentos noturnos, mas ao recordar que em breve teria de subir para dormir, se retesou.

: – O que foi?

– Nada.

Uns minutos passaram.

: – Mãe.

– O quê?

– Nada.

Hora de dormir.

Anali tomou banho, escovou os dentes, pôs o pijama e ficou parada à porta do quarto, meramente encostada, sem arranjar coragem para entrar. Buscou forças em Rodolfo, que lhe esperava na cama, e empurrou a porta de madeira envernizada.

Enfiou-se nas cobertas e pôs para fora o medo em forma de abraço apertado no sapinho. Não apagara a luz, mas meia hora depois sua mãe entreabriu a porta e tocou o interruptor, no canto da parede. O medo foi ganhando contornos de pavor, e para se distrair, encetou uma trêmula conversa sussurrada com Rodolfo sobre as férias escolares próximas e sobre suas atividades preferidas. Quando o ar que saía de sua boca passou a ser visível, deu-se conta do frio que baixara no quarto.

Instintivamente, cobriu a cabeça e se apertou contra si, gemendo de desespero.

: – Anali. Anali… – a garotinha não respondeu. A voz parecia extremamente perto, algum lugar perto do ouvido, e isso arrepiou a criança escondida.

: – Anali… por favor…

– Vá embora. – Murmurou Anali.

– Cadê o seu pai, Anali? – o timbre da menina continuava fraco, resignado e melancólico, mas por trás disso ouvia-se lampejos de urgência persuasiva. Ela precisava ser escutada.

– Não quero saber do meu pai! Ele não quer saber de mim, não vou querer saber dele! Vá embora! – expressou-se um pouco mais alto.

– Cadê a sua família?

– Minha mãe é minha família!

– Os retratos, Anali. Olhe os retratos. – O ar desanuviou-se e a presença fantasmagórica deixou Anali, que chorava baixinho, em paz.

Ao tomarem juntas o desjejum, a mãe percebeu olheiras na filha.

: – Não dormiu de novo?

– Não.

– Você me disse que estava tudo bem na escola. – Anali não respondeu. Partiu o pão e ficou olhando para as metades em cima do prato.

– Anali, não vai me dizer o que está acontecendo?

– O papai não gosta mesmo de mim? – ergueu o triste semblante para a severa carranca alourada.

– Filha! Quando você tiver mais idade eu conto a história toda! Não quero mais que você mencione aquele bandido aqui em casa!

– E meus primos, tios, vovô, vovó… por que nos retratos só tem eu e você?

– Porque sim! – bateu na mesa, fazendo a prataria tilintar. – Pare de se preocupar com besteiras, vou tirar o carro, vá escovar os dentes! – arrastou bruscamente a cadeira ao se levantar.

A ida e a volta da escola transcorreram em silêncio, bem como o almoço. À tarde, Anali estudou longamente os parcos retratos dispostos sobre a estante da televisão. O que aparecia era ela com a mãe, ela sozinha ou, num deles, a mãe sozinha. A maior parte das fotos havia sido tirada em casa.

Na janta, nada foi falado por um bom tempo até a mãe perguntar se ela já havia parado de pensar besteira.

: – Já.

– Que bom. Que bom. – Sentindo o medo que sentia da mãe, não arriscou ainda mencionar os estranhos acontecimentos em seu quarto.

Surpresa, notou, enquanto vestia o pijama, que a repulsa que tinha pela menina que lhe visitava diminuíra, e foi com certa dose de curiosidade que se aconchegou na cama ao lado de Rodolfo.

Quando o local esfriou e as sombras nos cantos pareceram ficar mais densas, Anali, tremendo e de coração palpitante, sentou no colchão, reunindo para tanto toda a sua coragem infantil. A porta se abriu, fazendo as dobradiças rangerem lentamente, e a voz, dessa vez, veio do corredor:

– Anali. Anali…

– Pode… pode… – engoliu em seco, apertando os olhos. – Pode entrar.

Materializou-se à sua cabeceira uma menina magricela, suja, dos cabelos lodosos e tez descarnada, colada ao crânio, e olhos de poços profundos. Anali gritou, gritou, gritou, gritou; gritou num desespero estridente capaz de rasgar gargantas menos privilegiadas, deformando a cabeça de Rodolfo num agoniado aperto.

Sua mãe irrompeu no quarto, acendeu a luz e sentou-se ao lado da filha, sacudiu a garota sem sucesso. A mulher então deu-lhe um sonoro tabefe no rosto e ela parou de gritar, sendo atacada por sucessivos calafrios soluçantes. A mãe disse palavras tenras e amenas para acalmar a filha, acariciando-lhe a cabeça e perscrutando atenciosamente o cômodo. Ficou com Anali até a criança adormecer, parecendo desconfiada, tentando extrair segredos dos recôncavos menos iluminados.

Na manhã seguinte, à mesa, a mãe iniciou a conversação:

– Não quer me dizer o que aconteceu ontem à noite? – Anali mexeu sem vontade o cereal no leite.

– Anali.

– Pesadelo.

– Um horror de pesadelo, hein?

– Foi muito ruim.

– Quer falar sobre ele?

– Não.

– Não. – Ecoou a mulher, concordando com movimentos de pescoço. Comeram quietas até a mãe anunciar que ia tirar o carro.

Com o passar do dia, Anali foi ficando cada vez mais assustada. Algo na sua mãe a deixava cada vez mais apreensiva, e temia ter assustado a menina. Um pedaço dela queria que ela voltasse, muito embora o horror dominasse a maior parte de suas especulações. A face morta, sem carne, sem olhos, a boca seca e rachada, o cheiro forte, os cabelos empastados, o frio que atingia os ossos… a figura da menina aparecia praticamente toda vez que Anali fechava os olhos, e o tormento só fez aumentar com o crepúsculo.

Outra vez, a garota viu da sala o céu tornar-se rosa, depois sangue, para então as cores mais escuras da noite se estabelecerem.

A TV, sintonizada em seus desenhos, passava despercebida. Anali experimentava uma esmagadora sensação de ansiedade angustiada, como se alguma coisa fosse dar extremamente errado em breve e nada houvesse para evitar a desgraça.

Como freqüentemente acontece após esse tipo de sensação, nada se passou. A noite foi tranqüila, e foram calmas também todas as noites seguintes pelos próximos quatro anos.

O vulto decadente e tortuoso da menina virou apenas uma memória ruim na cabeça de Anali, uma memória contra a qual ela lutou durante bastante tempo, até se condicionar a não pensar mais no assunto. As conversas com a mãe, entretanto, permaneceram minguadas, sem muito interesse demonstrado por qualquer lado. Além disso, a insegurança da jovem mocinha em relação à mulher aumentou.

Anali não perguntou mais pelo pai ou pela família, contentou-se em levar sua vida, desejando com ardor estar já longe dali. Tinha doze anos e contava os dias para atingir a maioridade e partir.

A casa nunca mudava. Os hábitos da mãe eram fixos e raramente se alteravam. As duas mal se falavam. Anali também não se sentia à vontade para levar amigas em casa, e a mãe não permitia que ela fosse à casa das colegas, de maneira que a garota ficou, de certo modo, isolada, muito embora fosse simpática e mais interessante do que a média das meninas de sua idade.

*

Numa noite que ela havia decidido passar em claro acompanhada por Rodolfo para terminar exercícios da escola, o gélido hálito tétrico tumular invadiu seu quarto, e instintivamente, da escrivaninha, ela olhou para a porta fechada, com a respiração presa. A maçaneta girou, a porta abriu devagar, revelando o negrume do corredor.

Lá fora, uma coruja piou e bateu asas. A luz do quarto apagou e os galhos da árvore, maiores, mais retorcidos, formaram contorcidos dedos de mãos hediondas por trás da cortina. O calafrio desceu lentamente através da espinha de Anali, dominou cada vértebra e se espalhandou mesmo para além delas. Ao chegar ao final da coluna, subiu de uma vez, como uma chicotada, e o tremor subseqüente foi involuntário.

O ar que saiu de sua boca entreaberta volteou, enevoado. Trêmula, Anali focou a escuridão do corredor, esperando que a figura horrorosa surgisse no portal, incapaz de fazer qualquer movimento.

: – Anali… – a voz veio do lado oposto ao que ela estava olhando, bem de perto, e quando ela virou, viu o fantasma e soltou um breve grito, caindo da cadeira.

Controlou-se contudo e manteve o silêncio enquanto contemplava, imóvel do chão, sua visitante morta.

A menina estava exatamente igual ao que ela lembrava. Podre, descarnada, melancólica, sem olhos. Ouviu passos apressados no quarto da mãe, levantou correndo e fechou a porta. Segundos depois, batidas ríspidas:

– Anali!

– Estou bem, mãe! – Fez um esforço para segurar a voz firme, olhava para a menina, que parecia encará-la de volta. A assombração tinha os braços meio afastados do corpo, como se alguma coisa não estivesse certa neles.

– O que foi isso?

– Caí da… Derrubei a cadeira! Esbarrei nela, só isso!

– Está machucada?

– Não! Eu tô bem, pode ir dormir! – falava olhando para a menina.

– Quer alguma coisa, alguma bebida?

– Não, eu tenho suco aqui, obrigada! – não tinha coisa nenhuma.

– Posso entrar?

– Por quê? – olhou, enfim, para a porta.

– Eu não nasci ontem, filha. Sei quando alguma coisa está errada. Já tive a sua idade. – Anali podia imaginar os olhos verdes analisando cada centímetro da porta, os ouvidos aguçados. Instintivamente, pôs a mão na frente da fechadura.

– Está tudo bem, mãe. Eu tenho que terminar uns exercícios para amanhã, depois a gente conversa, pode ser? – dois minutos de expectativa e:

– Como está fazendo exercícios com a lâmpada desligada?

– Penso melhor no escuro. – Mais dois minutos.

– Tudo bem, Anali. Mas amanhã conversaremos.

– OK.

A mulher ainda ficou parada à porta por instantes antes de retornar ao seu quarto. Somente quando veio a certeza de que nada seria ouvido Anali se deixou tombar como gelatina para a base da parede, e estudando sua visita, procurou demonstrar estar pronta para ouvir.

A menina deu uns passos, ao que sua forçada anfitriã retraiu-se automaticamente. Parou de andar e começou:

– As provas estão no quarto dela.

– Provas? – Anali respirava com dificuldade. A menina assentiu. – Que provas?

– Teríamos sido boas amigas. – O fantasma foi deslizando para trás, próximo à janela, evanesceu. A temperatura do quarto voltou ao normal e a luz acendeu.

De manhã, durante a refeição, a mãe falou:

– E então, o que houve? – Anali ergueu a vista e contemplou os ávidos olhos lampejantes do outro lado da superfície da mesa. Fitou a mãe longamente, num misto de desconfiança e medo.

– O que é, Anali? por que está me olhando assim?

– Nada. – Voltou a comer.

– Está com algum namorado? É muito nova pra isso.

– Eu não tenho vida social.

– Faz bem. – Anali encarou a mulher novamente, a colher com ovo mexido a meio caminho da boca.

– Não foi uma escolha que eu fiz. – Disse.

– Pois deveria. Pessoas demais só atrapalham.

A mocinha suspirou e continuou comendo.

: – A conversa não acabou. Vou tirar o carro.

– Mãe, a senhora vai sair hoje?

– Não.

– A Carla me falou de uma queima de estoque na Henner.

– É mesmo? – ela parou de pé, apoiou uma mão no encosto da cadeira. – Bom, talvez eu passe lá enquanto você estiver no colégio.

– Eu não vou hoje.

– E por que não?

– Não consegui terminar o exercício de álgebra. Se eu aparecer lá sem ele, Nivaldo vai dar zero. Melhor faltar e entregar semana que vem.

– Anali…

– Mãe, quantas vezes eu faltei à escola na vida?

– Poucas…

– Tenho crédito, não?

– Onde você está aprendendo a falar assim? – a mãe franziu a testa.

– Vou pro quarto terminar o exercício. – Empurrou a cadeira.

– Vai à Henner comigo?

– Não.

– Por quê?

– Fiquei para estudar, mas se achar algo do meu tamanho traga, por favor. – A mãe a olhou estranho, e Anali sentiu o coração acelerar. Disfarçou e sumiu da cozinha.

Duas horas depois, ao ouvir o ronco do carro da casa e seu afastamento, depositou num canto da escrivaninha o livro que estava lendo e foi ao corredor. Certificou-se de que realmente não havia riscos e alcançou a porta da pessoa que lhe deixava insegura.

Estava trancada.

– Maldita! – surpreendeu-se.

Pensou e lembrou da grande árvore do lado de fora. Seus galhos relavam nas duas janelas principais do primeiro andar. Sem maiores hesitações, a garota saiu de casa, deu a volta no jardim e constatou que escalar o tronco era algo perfeitamente possível.

Encetou a empreitada, e em minutos já se equilibrava com cuidado nos galhos mais finos, deitada, quase tocando o peitoril da entrada alternativa para o quarto da mãe. Sobressaltou-se com uma voz forte, rouca e curiosa vinda da calçada:

– Anali! Está assaltando a própria casa? – era Alfredo, senhorzinho que vivia em frente, barrigudo, viúvo, uma das poucas pessoas com quem sua mãe conversava.

Anali, que quase caíra de susto, se virou como pôde para ter um vislumbre do vizinho:

– A porta do meu quarto não tá abrindo! Preciso entrar!

– Desce daí, menina, vou chamar um chaveiro!

– Não precisa, já alcancei a janela!

– Você pode cair! – ela notou que alguns passantes olhavam-na, tentando compreender a inusitada situação.

– Não vou cair, seu Alfredo! Se quiser, fique embaixo da árvore, se acontecer alguma coisa o senhor me segura!

– Olha pra mim, menina! Derrubo até copo vazio! Eu vou chamar o chaveiro e fim de papo!

– Olhe, seu Alfredo! – o velho interrompeu o movimento que começara a fazer e viu a garota, agilmente, abrir a janela e meio que escorregar para dentro do cômodo. De lá, ela gritou, entre arfadas curtas:

– Viu? Entrei! Obrigada pela preocupação! – fechou a janela e esperou recuperar o pleno funcionamento da respiração.

O quarto da mãe. Podia até contar nos dedos quantas vezes havia entrado ali. Guarda-roupa com espelhos nas portas, computador, cama de casal, cômodas, um armário antigo de aparência mambembe, o banheiro pequeno, um tapete circular, cor de vinho, que tomava quase todo o chão, abajur sobre o criado mudo e uma prateleira repleta de livros sobre psicologia.

As provas, sobre o que quer que fosse, descansavam n’algum lugar po ali.

Preocupada com o pouco tempo de que dispunha, Anali começou a procurar freneticamente, pouco se importando em deixar as coisas nos seus devidos lugares. A atividade a amedrontou, mas ela não parou. Naquele dia, temeu a mãe mais do que nunca.

Já assumia ares de frustração até ter a idéia de olhar embaixo do colchão. Bagunçara as roupas, os pertences gerais, os livros, as cômodas, revirara o banheiro e nada. Embaixo da cama, nada também. Desforrou a cama, atirando de qualquer jeito sobre o tapete lençol, cobertores e travesseiros. Fez o mesmo com o colchão, e sobre o estrado, descobriu três grandes envelopes preenchidos, um deles bastante irregular, como se o que importasse ocupasse apenas metade de seu espaço interior.

Anali experimentou aquela sensação do estômago caindo, mas se conteve. Respeitosamente, pegou sua descoberta e sentou no chão.

Cada envelope continha a frase: “Para não me esquecer”. Temendo o que encontraria, Anali abriu o primeiro, e ficou abismada com a quantidade de dinheiro que encontrou. Só haviam notas de cem, talvez mais de uma centena delas. Alarmada, rompeu o lacre do segundo e achou fotografias.

Numa foto, via um homem de maxilar avantajado, ombros largos, cabelo bem cortado rajado de grisalho, sorrindo. Ao seu lado, uma mulher loira de belíssimos cachos anelados, visivelmente feliz. O cenário era uma praça bastante arborizada, e eles estavam num banco branco de metal. À frente deles, sentada, segurando um sapinho de pelúcia idêntico a Rodolfo, havia uma criança de cabelos negros, pele alva e lábios avermelhados. Os olhos azuis miravam a lente da câmera esbanjando felicidade. Em seus braços, uma bebê, envolta em panos, levantava a mãozinha em um inocente aceno.

As outras fotografias continham os mesmos personagens, juntos ou não, e Anali ficou aterrorizada quando viu a imagem da criança mais velha sozinha, sorrindo, dois dentes faltando, encostada num gradeado que cercava algum brinquedo de parque de diversões. O caimento dos fios capilares, o formato do rosto, a boca, mesmo o ar que a envolvia… era a menina.

Assombrada, viu noutra foto a bebê no chão de casa cercada por bloquinhos de montar, tecidos e bolas fofas, tendo diante de si, formado pelos blocos com letras, o próprio nome: Anali.

O cérebro da garota entrou em parafuso e ela começou a passar as fotos de modo automático, tentando controlar a respiração acelerada. A maioria das imagens era do homem bem apessoado, provavelmente seu pai. Seu pai. Ela sabia disso. A mulher que aparecia ao lado dele sentada no banco era, então, sua mãe? Sua verdadeira mãe? Fazia sentido. Apesar do cabelo escuro, os traços de Anali lembravam bem mais os das pessoas nas fotografias.

Ávida, Anali rasgou o último envelope e pôs a mão dentro. Assustou-se e puxou o braço imediatamente, derrubando o pacote, e com isso, espalhando cinzas pelo tapete.

Seus olhos grudaram no pó e ela perdeu a noção do tempo, mal piscava. Foi desperta pela voz da mulher que até pouco tempo atrás chamava de mãe, vinda da sala:

– Anali, Não tinha queima de estoque coisa nenhuma, mas comprei umas coisas, venha dar uma olhada!

Anali não tinha celular, a mãe se recusara a comprar, e o telefone da casa ficava na cozinha. Olhou para a fechadura e viu que não tinha chave ali. Correu até a janela, e passou para o galho de árvore mais próximo enquanto ouvia a assassina de sua família se aproximar:

– Anali?! – subia as escadas.

A garota voltou rapidamente, recolheu fotos, cédulas de cem e pegou o envelope com as cinzas, dobrando-o da maneira mais segura que conseguiu pensar antes de avançar para fora novamente. Ouviu batidas na porta do seu quarto e se apressou. Ao mesmo tempo em que descia a árvore, soube que a “mãe” entrara em seu dormitório.

Ao pisar na grama, ouviu:

– Anali! – o odioso esgar de fúria emitido no berro denunciou que a megera chegara, enfim, ao seu próprio quarto. Ela acorreu à janela a tempo de ver a menina correndo pelo jardim.

– Anali! – chamou, debruçada, lívida de raiva.

– Você vai pagar! Você vai pagar! – devolveu a jovem, lutando inutilmente, contra as lágrimas, alcançando a rua e pondo-se a correr desembalada.

A mulher deu um estranho grito para dentro que mais pareceu um rugido frustrado e desapareceu da janela. Pouco depois, entrava no carro e dava a partida apressadamente.

Anali já estava numa esquina, quase entrando num táxi, quando o carro da assassina se chocou contra o veículo de placa vermelha, afundando uma de suas portas traseiras e fazendo-o girar uma meia lua. O motorista saiu do táxi possesso, um senhor de faces rubras e bigodes vastos, e não menos furiosa se apresentou a “mãe” de Anali. A garota, paralisada pelo acontecido, sequer percebia o furor que a situação causara nas pessoas ao redor. Um outro carro parou, seu dono tinha a intenção de resolver o problema e evitar alguma desgraça, mas parou de andar ao ver a pistola nas mãos da mulher, que louca, apontou-a para o taxista.

O homem se rendeu a contragosto, recuando e encostando no veículo danificado. Fumaça saía do motor da raivosa fêmea armada. Os primeiros gritos de pavor foram ouvidos e o povo se dispersou, janelas fecharam, motoqueiros arrancaram.

O taxista, inconformado, disse:

– Atire pra matar, sua vagabunda, se errar eu juro que acabo com você! Eu acabo com você! – a mulher, contudo, olhava para Anali, que tremia e chorava:

– Eu devia ter me livrado de você. Eu devia ter me livrado de todos vocês. – o ressentimento profundo nos olhos, tempestades oceânicas de tristeza, ódio e amargura, não refletiam a suavidade mórbida da voz.

– Monstra! – falou a orfã, apertando o envelope com as cinzas contra o corpo.

– Deixe a criança em paz! – bradou o taxista, se adiantando.

Seis disparos. Três no homem de bigodes, dois em Anali, um na própria cabeça.

*

Anali se viu em uma região cheia de árvores, arbustos e folhas no chão. O silêncio imperava, e a fraca iluminação noturna era filtrada pelas copas baixas. Algo estava errado com o tempo por ali. As horas não passavam, os minutos não corriam, e mesmo a substância do ar trafegava carregada de estranhezas insondáveis.

A paisagem era bela, porém inóspita. No meio daquela hostilidade selvagem, a figura de uma menina bonita e melancólica, parada entre duas árvores especialmente rombudas, chamou a atenção. Anali caminhou até a sua irmã, que estava bem diferente da aparição decadente e assustadora que invadira-lhe o quarto.

A menina sorriu:

– Obrigada, Anali. Sempre soube que você conseguiria.

– Irmã… – Anali não conteve as lágrimas, elas escorreram placidamente. – Estou morta?

– Nem morta nem viva. Mas vai tudo ficar bem. – O tom de eterna resignação mesclou-se a toques de otimismo. – Um dos tiros foi no ombro.

– E o outro?

– Na barriga.

– Qual é o seu nome?

– Ariadne. – A menina estendeu a mão. – Teríamos sido boas amigas.

Anali puxou a irmã mais velha, cuja aparência ainda era a de alguém com sete ou oito anos, e a esmagou num abraço, abraço fortalecido e sustentado por anos de injustiça encoberta.

– Onde você está, Ariadne? – perguntou, fungando, após soltar a pequena.

– Bem aqui. – A menina indicou o solo. – Não fui queimada como nossos pais. Eu fugi dela, da assassina, quando ela nos levava embora, a fiz parar o carro e corri. Atravessei essa mata com ela atrás de mim, mas não sabia que também existia uma estrada do outro lado. Uma moto me atropelou. Morremos eu e o motoqueiro. A estrada estava deserta, era madrugada, então a desgraçada recuperou meu corpo e me enterrou aqui.

– A maldita queimou nosso pais! Meu Deus, estou no hospital com ela, ela vai me matar!

– Ela morreu, irmãzinha. Matou-se. Vai tudo ficar bem. – A menina fez uma pausa e alisou a face da irmã. – Tenho orgulho de você. – Anali concordou acenando, contendo o choro.

– Agora vá, é hora de voltar.

– Como faço isso?

– Permita-se levar.

– Venha me visitar, por favor, venha me visitar. – Pediu, sentindo uma espécie de atração que a puxava para o sul da pequena floresta.

– Você é mais forte do que isso, Anali. Irmãzinha. Eu te amo.

– Eu te amo, Ariadne, jamais vou te esquecer. – Os contornos da órfã mais nova começaram a ficar indefinidos.

– Eu sei. Também não te esquecerei.

Anali voltou para o mundo dos vivos. Achava-se impotente, destruída, e mais uma série de coisas que sua mente de doze anos não entendia. Todavia, achava-se igualmente capaz de sair debaixo dos escombros e levar uma existência notável. Por mamãe, papai e Ariadne.

*

Conto de Jorge H. Gris

Bragança Paulista, 2014

Imagem: Pexels

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