Nota sobre “Battlefield: Bad Company”

“Vereis amor da pátria, não movido

De prêmio vil, mas alto e quase eterno;” (1)

No início da décima estrofe do primeiro canto d'”Os Lusíadas” Camões alerta o “…poderoso Rei…” de Portugal de que nos desbravadores filhos de seu reino ele verá aquele amor à patria mais sublime, desinteressado de espólios conseguidos no campo de batalha, frutos do sangue e da conquista; os portugueses não se interessariam por mesquinharias mundanas como a prata e o ouro.

Preston Marlowe, protagonista de “Battlefield: Bad Company” e seus companheiros de peleja não são nobres filhos de Portugal. Aliás, tudo indica que eles não são nobres rebentos de ninguém, pois só servem na Má Companhia aqueles sujeitos desajustados e problemáticos, incluindo criminosos em busca d’algum tipo de perdão.

A tarefa da Má Companhia é, basicamente, ser ponta de lança, esfregão e rodo ao mesmo tempo, de maneira que a missão da parte mais comportada do exército fique mais fácil. Marlowe e os outros lidam bem com as exigências do dever até descobrirem que os mercenários que auxiliam seus inimigos carregam ouro por aí… num ato de sã loucura, Haggard, o alucinado amante de explosões, sai correndo atrás d’um caminhão cheio do vil metal e cruza a fronteira de um país teoricamente neutro naquele conflito bélico entre russos e americanos. O resto do grupo vai salvar o amigo e viram todos desertores. (2)

Como jogo “Battlefield: Bad Company” é satisfatório, embora sua campanha só engate de verdade no terço final e os afazeres sejam, em geral, repetitivos, as escaramuças raramente são entediantes graças à disposição dos inimigos pelo cenário e à razoável variedade de equipamentos e veículos pilotáveis espalhados pelo mapa. Ademais, o quarteto que conduz a ação funciona bem em conjunto, e se o jogador se cansar de tudo ele pode procurar ouro, há ouro para ser descoberto em várias áreas.

O título da obra entrega que combates intensos em ambientes fechados praticamente inexistem, quase toda a ação se passa ao ar livre, muitas vezes em verdadeiros campos, até mesmo no campo de golfe d’um ditador mequetrefe, e além de soldados enfrentamos tanques, lanchas e helicópteros.

Eu gostei da companhia daqueles desgarrados. Não me animo a revisitar tão cedo aqueles prados, mas a experiência foi agradável, eu me diverti e sorri algumas vezes.

Ah, a trilha sonora é sensacional.

1 – “Os Lusíadas”, coleção de clássicos da Editora Abril, 2010

2 – Haggard é um personagem especialmente carismático, é aquele típico doidinho mais ou menos inocente. As primeiras palavras que ele dirige a Preston Marlowe são as seguintes: “Hey, how are you doing? You smell very clean.”

*

Bragança Paulista, 2020

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