Coração de Bebê

Estava eu com o Davi, meu filho bebê, quando ele se pôs a proferir as mais estranhas encadeações fonéticas e silábicas, como é de seu costume, só que desta vez o menininho se alongou, usou tons solenes, moveu os braços gordinhos em direções diversas, apertou os olhinhos, acelerou e desacelerou o discurso conforme os desígnios de seu coração de bebê; foi de fato a pequena criatura mais eloqüente que já vi e ouvi, parecia versar sobre os segredos do universo, parecia verter verdades profundas, e tudo isso com aquela saudável consciência de não se levar demasiado a sério o tempo inteiro.

Finalmente beliscado pela curiosidade, aproveitei uma pausa especialmente contemplativa e perguntei:

— Davi, você realmente pensa que a gente te entende?

Ele ergueu as sobrancelhas, levantou o queixinho e respondeu:

— Não.

*

Bragança Paulista, 2019

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