Nota sobre “Unforgiven”

William Munny era um homem visceralmente cruel, não poupava ninguém em suas chacinas demoníacas, todavia cruzou o caminho do monstro uma mulher boa, talvez até santa, que abriu seus olhos ao mal que fazia e emendou como pôde aquele coração já tão rachado por tremendos pecados. O pistoleiro teve dois filhos e se recolheu a uma vida rural pacata; cuidava das crianças e honrava a memória da mulher falecida. O que ele não sabia é que um rapazote trazido por ecos do passado o convocaria pr’uma caçada: dois rancheiros haviam desfigurado uma puta e as companheiras dela desejavam vingança; a recompensa era boa o bastante para garantir um futuro melhorzinho aos seus filhos, então William, que estava metido num lugarzinho miserável, cercado de porcos doentes e sem maiores perspectivas de futuro, decide tomar parte na caçada.

Uma sensação que me acompanhou durante todo o filme foi a de que o perdão é uma força poderosa na manutenção da paz e no bom progresso das sociedades. Toda a marcha destrutiva da história se inicia com a incapacidade d’um sujeito de desculpar um gracejo meio inocente a respeito do tamanho, ou melhor, da falta de tamanho, de seu menestrel, e ganha fôlego quando o presente conciliatório ofertado à mulher agredida por um de seus algozes é dispensado pelo coro de putas raivosas às portas da taverna.

No fim das contas, tanta raiva e violência não traz redenção a ninguém, muito pelo contrário, desgraça, de uma forma ou de outra, todos aqueles envolvidos mais diretamente no imbróglio.

*

Bragança Paulista, 2020

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