Brevidades #7

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Em “A Mão e a Luva” Machado de Assis se propõe tão somente a esboçar caracteres, especialmente o de Guiomar, a protagonista, e avisa ao leitor, numa nota, que toda a ação da história não é mais do que o pano de fundo que serve a esse propósito. Pois ele consegue entregar ao leitor não só uma personagem bem-feita, mas várias, o que é verdadeiramente surpreendente para um livro com menos de 110 páginas.

Mais que isso, Machado de Assis delicia o leitor com trechos esmerados e belas figuras de linguagem (diz, das lágrimas, que são jóias dadas ou recebidas, por exemplo).

Só não coloco o livro tão lá em cima porque, entre outras coisas, realmente faltou espaço para que a maioria dos caracteres retratados fossem postos em ação mais vezes, de maneira que ficou em mim uma sensação de falta, um resíduo de incompletude.

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Quando li “A Nevasca”, do Pushkin, rascunhei o seguinte:

Uma moça de boa família se engraça com um rapaz desaprovado por seus pais e, como havia crescido sob o que parece ser a nefasta influência dos romances franceses, se permite tomar parte num desses planos cruelmente egoístas que somente os mais apaixonados, cegos pelo fogo que brota em seus corações, acham razoáveis: a fuga, obviamente. Fica acertado que o casal fugirá para se casar numa cidadezinha não muito longe, mas na madrugada combinada uma poderosa nevasca, provavelmente encomendada pelo próprio Deus aos seus anjos, desfaz a empresa dos loucos e abre caminho para a redenção futura de almas angustiadas.

Pushkin entrega ao leitor uma plausível experiência de interferência divina nos descaminhos das pessoas boas.

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Se alguém me perguntasse onde poderia encontrar um personagem realmente miserável e digno de pena, uma de minhas primeiras recomendações, após afastar o trabalho do Kafka da cabeça, seria o conto “O Capote”, de Nikolai Gógol. Akáki Akakievitch, o protagonista, é um funcionário público quase completamente desprovido de imaginação, sem qualquer vida interior, que só sabe copiar textos e freqüentemente é desrespeitado – pra não dizer humilhado – pelos colegas. O infeliz não consegue sequer se expressar com o mínimo de clareza.

Sua vida vazia e rasteira só ganha algum sentido quando ele precisa trocar o capote antigo, já quase em farrapos, para não passar tão mal o rigoroso inverno local. Todo o processo que envolve a aquisição da nova vestimenta, então, ganha importância fundamental na vida daquele pobre diabo. Ele discute detalhes com o alfaiate, sai para ver tecidos e permite que sua pobre imaginação se vista e passeie com o tal capote. Akáki Akakievitch vive, enfim, para o capote, e quando o consegue sente uma alegria imensa, é quase como se finalmente fosse digno de existir.

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“Rush ‘n Attack” combina dois atributos bastante comuns a jogos mais antigos: a ingenuidade idiota e a dificuldade cruel. Controlamos um sujeitinho que, incumbido de uma missão improvável, é largado em território inimigo armado com uma faquinha de pão estranhamente letal – provavelmente besuntada com veneno – e guarnecido por apenas cinco vidas, sem continuidade, isto é, se o jogador gastar as vidas o jogo acaba e o soldadinho tem de recomeçar da primeira fase.

O problema é que o jogo não é bom o suficiente para empolgar, e o que foi concebido como desafio vira só chateação. O trocadilho sonoro besta do título da versão de Nintendinho é o melhor que o negócio tem a oferecer.

*

Bragança Paulista, 2019

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