Nota sobre “O Espião que Saiu do Frio”

O frio mais brutal, que humilha qualquer forma de vida interior verdadeira e congela a compaixão, talvez seja aquele frio que germina desde o âmago e se alastra insistente por todos os recantos da pessoa. Certamente é um frio familiar a muitos agentes no mundo da espionagem. Alec Leamas, que no fundo não suporta mais carregar um bloco de gelo no lugar do coração, vê diante de si a chance de largar a vida triste composta de fraudes e sangue que havia levado por tantos anos: bastava o sucesso de sua missão derradeira e estaria livre. Porém o espião descobriria o quão sem escrúpulos era aquele jogo secreto após ser infiltrado na Alemanha Oriental.

A existência de um agente de campo é seca. As emoções são reprimidas, a individualidade é abandonada e no fim das contas não há nada mais transcendental do que o Estado, só que qualquer um que se dedica de corpo e alma ao Estado, portanto que faz do Estado uma espécie de Deus, é descartável; é um tipo de relacionamento oposto ao relacionamento com o Deus Vivo, pois se nos dedicamos a Deus somos amados e acolhidos.

John Le Carré (David John Moore Conrnwell) trabalhou no serviço secreto, então conhecia de perto todo esse universo deprimente e inevitável da civilização. Bom observador, não gastou muita tinta no desenvolvimentos de seus personagens mas ainda assim conseguiu transmitir parte da essência de cada um deles. A personagem que mais se destacou diante de meus olhos, além do próprio protagonista, foi Elizabeth Gold; filiada ao Partido Comunista, a mulher detestava várias aspectos relacionados aos seus irmãos ideológicos. Não gostava do som militar da palavra “camarada”; incomodava-se com a quantidade de mentiras postas em circulação pelos membros do Partido; achava patética a bajulação sem sentido que grassava através de sua célula e enxergava o fracasso dos esforços em conseguir adesão espontânea da própria população trabalhadora à causa. Mesmo com tanto desgosto ela continuava firme, afinal, tudo aquilo servia a um bem maior e não havia como escapar da História; a História era o Deus daquela mulher.

Enfim, “O Espião que Saiu do Frio” ajuda a vislumbrar as engrenagens mais embrenhadas das implacáveis máquinas estatais.

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Bragança Paulista, 2021

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