Brevidades #8

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“Kaiketsu Lion-Maru” é uma série japonesa do início dos anos 70. Nela, um sujeito fantasiado de leão branco monta num pangaré com asas de EVA e, auxiliado por seus dois irmãos de criação, a bela Saori e um pirralho mais chato que descobrir móveis no escuro com o mindinho, derrota monstros enviados por uma entidade maligna que está de olho no Japão.

A série, obviamente, não é aquela maravilha imperdível, mas no primeiro episódio o mestre do trio, quando entrega uma espada para Saori, lembra sua pupila de conservar a beleza e a delicadeza de uma mulher. Ou seja, você pode ser forte e derrubar os homens, fia, só não deixe de canto o garbo feminino, senão você vira uma tranqueira fedida e porradeira que ninguém agüenta.

Suspeito que eu dificilmente veria um diálogo desses numa série infanto-juvenil de hoje… aliás, veria algo parecido, sim, mas dirigido ao homem.

*

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Em ‘Maigret e os Flamengos”, o comissário Maigret é chamado por uma rica família de Givet, na fronteira da França com a Bélgica, para dissipar as suspeitas que pairam sobre o filho da casa. Joseph, este é o nome dele, é suspeito de ter assassinado uma mulher com a qual tivera um bebê quando já estava comprometido com a prima.

Maigret, aqui, apresenta seus personagens críveis, mas o brilho dessa vez não está neles, e sim na ambientação da história, na cidade de Givet e na propriedade dos flamengos. Senti-me como se tivesse mesmo passado uma temporada em Givet durante o período chuvoso; a casa da família Peeters, que se tornou familiar para Maigret, também se tornou familiar para mim, e tudo isso em menos de 150 páginas curtas d’uma edição de bolso.

O maior mérito de Simenon neste livro foi a ambientação.

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“Morte olhando pela janela de um moribundo”, do pintor tcheco Jaroslav Panuska, é um quadro simples, mas que chamou minha atenção. Chamou a minha atenção o suficiente para que eu ficasse curioso a respeito do resto da obra do sujeito. Na tela, a morte, representada como uma entidade esquálida, contempla com curiosidade o interior do que parece ser uma humilde choupana.

A Morte para o artista seria, então, o quê? Espécie de entidade espectadora de desgraças, que por ser muito vislumbrada em momentos derradeiros ganhou a fama de ser ela própria a causadora de tais momentos?

Bragança Paulista, 2020

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