Brevidades #10

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Há quem se incomode com literatura porque, ao ler um bom livro, vê mais de si do que gostaria retratado num personagem, às vezes num personagem francamente desagradável, e tem a sensação de que sua intimidade foi invadida por um desconhecido pretensioso metido a sabe-tudo que não tinha qualquer direito de elaborar, em público ainda por cima, suposições daquela natureza ao seu respeito. Em suma, a literatura muitas vezes serve como espelho, e não são todos que gostam da imagem refletida.

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No livro que tem por título seu nome, Maigret, já aposentado e morando no campo, volta ao seu velho cenário para lidar com a patetice que o sobrinho, rapaz sem a menor vocação para policial, havia cometido durante uma investigação. Simenon passeia com o leitor pelo submundo da noite parisiense daquela época, que bem podia ser o submundo de qualquer cidade grande razoavelmente decaída, e pincela, de modo mais apressado do que de costume, diversos tipos de criminosos e deslocados da vida. A pressa do autor pode ser atribuída, ao menos em parte, ao estado de espírito de seu protagonista: Maigret não queria estar ali, naquele ambiente baixo e opressor, tratando com assassinos, traficantes e crápulas diversos, queria era sua casa de campo, seu barco, sua pescaria; afinal, havia se aposentado, esperava continuar aposentado.

Enfim, Simenon tem histórias melhores, todavia esta ainda é uma leitura agradável que pode ser proveitosa.

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“Hellraiser” é o filme mais grotesco que eu já vi em muito tempo. O negócio é nojento, feio, deprimente, e no entanto toda essa carga negativa, embora nem sempre administrada do melhor modo possível, tem sentido maior na obra. “Hellraiser” é um excelente lembrete de que o salário do pecado é a morte, de que o Mal é repugnante e de que escravoceta só se desgraça. Ademais, não é filme para quem tem estômago fraco nem a pau.

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Se alguém se declara seu inimigo e age mesmo como inimigo, é prudente enxergar aquela pessoa como inimiga, oras. Fulano falou ou demonstrou veementemente que é seu inimigo, ou que é inimigo de tudo o que você mais valoriza, de tudo o que você considera mais sagrado? Pois muito bem, trate-o como inimigo! Você vai querer ficar de conversinha mole com quem quer te destruir? Com inimigos não há diálogo, há combate.

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Talvez o destino de todo puritano obstinado seja se tornar nojento e horroroso.

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