O Quarto das Mulheres

Quando o céu quebra em estrondos, luzes, rios, e você está perdido numa estrada desolada e hostil, geralmente não é o melhor momento para que seu carro pife. William Smith absorveu tal verdade de modo tão orgânico quanto imediato ao perceber os faróis falhando e ouvir o motor morrendo. Ficou sozinho na noite tempestuosa, ladeado por campos inescrutáveis.

“Maldito carro velho”. Celular sem sinal, obviamente. Bufou e se recostou por completo no assento, escutando o castigo recebido pela antiga lataria imprestável. Seu cliente tinha de morar do outro lado do globo! Afrouxou a gravata preta e tentou dar a partida novamente, em vão. Não podia ficar dentro do carro, no escuro, no meio da estrada, era um convite a acidentes. Mesmo com a sinalização adequada, seria perigoso com aquele tempo.

Resignado diante da possibilidade de perder o Corsa, bateu de leve no volante. Ainda lamentava pra si mesmo quando divisou, no riscado horizonte a leste, um monte negro não notado previamente. Seus estranhos contornos difusos se espichavam, irregulares, reinando na campina. O homem desembaçou com a mão a janela do carona, e pensou ter visto escarpas, mas eram retas demais. Seria uma montanha bem longe?

Surpreendeu-se no instante em que um clarão ofuscante, antecedido por tambores de tormenta e seguido por espadas de energia pura, revelou haver ali nem morro nem montanha, e sim um palacete quase em estilo gótico.

O advogado aproximou mais o rosto do vidro. “É magnífico”. Nutrindo esperanças de que talvez lá conseguisse ajuda, e rezando para nenhum caminhão destruir o único veículo que possuía, ele pôs-se fora, com maleta e lanterna, usando o paletó acima da cabeça castanha como proteção ineficiente contra o impiedoso dilúvio.

Saiu do asfalto e encharcou os sapatos na grama, caminhou apressado, sem conferir demasiada importância ao fato de não existir, em seu objetivo, uma única fonte de luz. Dormiam, lógico, não era cedo.

A suntuosidade do lugar despejou-lhe insignificância, acentuada pelo seu lastimável estado de homem ao mar. Comprara uma maleta impermeável, e aquele era seu teste definitivo.

As vultosas paredes do pequeno palácio se mostravam mais sólidas do que muitas personalidades. Os arcos, embelezando portas, janelas e sacadas, foram esculpidos magistralmente, e as cachoeiras que corriam pelas pedras davam à construção um solene tom imperturbável, atestado pelo desprezo que ela reservava aos trovões, poderosos o bastante para dobrar exércitos inteiros.

A dupla porta de mogno, protegida por uma abóbada, continha horripilantes gravuras de lobos atacando ou assustando donzelas em bosques. Contudo, o que mais intimidou o homem perdido foram as gárgulas encarapitadas nas janelas, varandas e esquinas. Ásperas, ferozes, pareciam prontas para matar, e a qualquer relâmpago respondiam com ávidos esgares sanguinários. Recortadas contra a tempestade, guardavam o palacete.

O homem ficou hipnotizado pelos monstros, por todo o conjunto, e se esqueceu momentaneamente da própria situação.

O frio cortava-lhe a carne, e não vendo campainha, já hesitava em perturbar a mórbida paz do monte gótico. “Que tipo de gente mora aqui?”. As portas não tinham aldravas, e certamente, se empregasse o próprio punho na atividade de se anunciar, não seria ouvido. Não o seria mesmo em dias de sol, tão maciça era a madeira.

Olhou para trás e achou impossível distingüir o carro. Sem saber bem o que o levou à ação, tentou entrar, e desacreditou ao constatar que o palacete estava aberto. O rijo e imponente mausoléu de segredos podia ser invadido, e aquilo, de algum modo, chegava-lhe como errado. Manteve-se no limiar, indeciso, até, relutante, decidir entrar. Precisava mesmo se abrigar, e entendeu que jamais o tomariam por ladrão, pois o interior adjacente, clareado em azul, encontrava-se despido da mais simples mobília.

“Está vazio. Está abandonado.”

Deu os primeiros passos incertos no interior da maravilha arquitetônica, deixou no chão o paletó molhado, ligou a lanterna e cerrou a porta. O ribombar exterior foi inacreditavelmente amenizado, havia se tornado só um longínquo ruído infenso. Porém, dos baixos janelões laterais de vidros grossíssimos, Smith podia vislumbrar os açoites naturais.

O advogado, meio medroso, iniciou a tímida exploração da opulenta residência olvidada, tomando todo o cuidado possível para não se perder também ali dentro. “Uma vez perdido já é o bastante.”

Quanto mais inspecionava, auxiliado pela tecnologia e pela natureza, mais achava espaços desocupados. Corredores, salas, salões, dormitórios, banheiros, varandas acorrentadas em ferrugem, cozinha, escadas… tudo entregue à melancolia, tudo envolto em crostas de lembranças sofridas agarradas às paredes, peitoris e corrimãos. O vazio oprimia-o, e havia algo naquele ar, um cheiro denso e abafado que sugeria desespero.

Sempre que se deparava com tais sensações, sacudia a cabeça, engolia em seco e prosseguia para o próximo cômodo.

Nada. Nada em parte alguma.

Trabalhava na mente a ingrata conformação por, ao menos, ter onde desafiar a tempestade e vencê-la. Pensava nisso ao subir a escadaria sem janelas que conduzia até o último torreão não visitado. Empurrou a porta do quarto mais elevado, ao final do caminho, e se surpreendeu de novo naquela noite.

Os céus jorraram luminosidade na câmara, e sua visão abarcou, de súbito, uma cama de casal arrumada, candelabros incrustados nas pedras, cortinas alvas esvoaçantes, e uma dúzia de quadros pendurados, cada um ostentando uma modelo diferente. Havia também um retrato inacabado num cavalete, ao canto. Pincéis se esparramavam ao redor do instrumento, junto com copos de madeira pisados e uma paleta rachada. Ali o piso tinha muitas cores.

O trovão soou perto demais. Os postigos estavam abertos e se lamuriavam. O homem passou o facho iluminado por cada rosto retratado, absorto com a destreza do artista e a variedade de belezas ali dispostas nas mínimas nuances.

Elas estavam tristes, amarguradas. Que gênio poderia capturar com tanta exatidão as angustiadas expressões apresentadas? O fundo das pinturas era igual; uma pequena insinuação de janela e campos, contendo a breve sugestão cinzenta de uma criatura. Ele pousou a maleta no chão e reconheceu o cenário. Afastou os panos brancos e, se não fosse a tormenta, veria bem a campina espraiada. A gárgula que vigiava o parapeito tinha a asa esquerda partida.

Não conseguia compreender como a cama se conservava arrumada, provida de cobertas e macios travesseiros cor de nuvens calmas. No meio do lençol, entretanto, havia uma mácula rubra. Instintivamente, mirou o teto com a lanterna e não viu nada incomum, a não ser o refinamento da arquitetura.

As mulheres assustavam-no, mas ele bem sabia que aquele era o único cômodo da casa digno de ser usado. “Os donos se mudaram há pouco, é a única explicação”. Relanceou a vista para as damas sorumbáticas. “Mas por quê?”. Reflexivo, fechou a pesada janela, não sem ser atacado por agressivos pingos nas faces.

Estudou de novo suas silenciosas companheiras. A mulher de fios soltos, lisos, rangia os dentes; a farta ruiva exprimia desolação; uma adolescente chorava com a alma; a negra encarava-o, inflexível; outra moça dispensava-lhe olhar não menos terrível; Tantas.

Sofrimento. Eram as musas da dor.

Inseguro, examinou a obra incompleta no cavalete. Jovem, parecia mais transparente e frágil que as outras. Sorria.

O mal estar se abateu sobre ele, e Smith se julgou fatigado em demasia. Achava-se extremamente desconfortável no quarto, sentia-se invasor, mas o dia fora difícil. Necessitava deitar, só queria deitar e esperar a chuva passar.

Tirou a gravata e a pendurou na cabeceira, puxou as cortinas e, após longa deliberação, cedeu ao cansaço e sentou no largo colchão macio. De manhã, relaxado, pensaria com mais clareza. Mas seria possível relaxar num quarto daqueles? Ignorou como pôde os quadros e foi atraído pelo magnetismo que as cobertas exercem sobre pessoas exaustas. Incomodava-se com a mancha vermelha no centro do lençol, todavia. Concluiu que era tinta.

Sem delongas, se esticou e todo o corpo lhe foi grato. Os músculos aliviaram a tensão, as costas suspiraram, a sonolência o tomou por inteiro, inebriou seus raciocínios, embaçou seus olhos. As pálpebras se recusavam a subir, e Smith ia embarcar no sono quando ouviu uma rascante súplica desarticulada, masculina, ecoar por todo o palácio. Um grito alto de martírio lacrimoso.

Arregalou os olhos de repente, com frio intenso. Ergueu-se, sentado, voltou a ligar a lanterna e perscrutou os arredores, evitando as mulheres. Consternado, retornou à horizontal, e mal o fizera, escutou outra vez o dilacerante berro ecoado de agonia. “Alguém ferido entrou aqui”. Porém, seu íntimo dizia que não era o caso, tanto que ele sequer teve coragem de sair da cama e buscar a fonte dos suplícios.

Como dormir?

O grito veio de novo, mais próximo, e dizia alguma coisa. Na quarta vez, William entendeu:

– Saia!

Arrepiado, apanhou a maleta e correu para fora do quarto. Algo o empurrou e ele rolou a escadaria enquanto lampejos de tormenta, vindos da câmara, pintaram parte das paredes. O advogado, por sorte ou providêcia, nada fraturou, só perdeu a lanterna, e mesmo atordoado disparou através da imensidão vazia do abandonado monte gótico, lutando para rememorar o caminho, temendo descer outra escada.

Em nada pensava, só queria escapar, sabia-se lá do quê.

A voz onipresente implorou:

– Saia!

William foi derrubado ao atravessar um salão, mas levantou, e apesar do nariz sangrando, empregou mais forças à fuga. Chegou, finalmente, ao ambiente de entrada. A porta estava aberta e ele saiu correndo desajeitado, pois tropeçara no paletó que deixara por ali, através da grama empapada, recebido por águas e trovões.

Ofegando, olhou para trás, para o alto, e na janela do torreão que estivera, viu mulheres a encararem-no com ódio.

Um ano depois, seu levantamento sobre o local estava feito. Descobriu que o antigo proprietário era um afamado artista regional e tinha gosto por pintar senhoritas virgens e assassiná-las após ter pronta a obra. Numa das sessões de pintura, o artista morreu misteriosamente, e nunca se soube que fim levou sua última modelo, nem quem ela era.

As outras mulheres foram encontradas enterradas no terreno da propriedade.

*

Jorge H. Gris

Bragança Paulista, 2013

Imagem: Ali Pazani/ Pexels

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