O Coração da Música, de Roger Scruton

Eu cresci na Grã-Bretanha pós-guerra, numa época em que as pessoas começavam a tratar o rádio como companheiro diário, numa época em que os discos de vinil despontavam no mercado, e numa época em que o Livro Americano de Canções e os bailes cediam espaço rapidamente ao blues e ao rock and roll. Todavia as formas antigas de educação musical ainda não haviam sido expulsas de nossas escolas e casas. O piano era uma vista comum nas salas normais em nossa rua, e como o esperado, eu aprendi a tocar. Cantávamos no coral da igreja, e também nas óperas de Gilbert e Sullivan que eram encenadas em nossa escola. No Natal todos éramos convidados à prefeitura para participar numa representação espontânea da versão de Mozart para “O Messias”; e mais tarde, quando Chuck Berry e Muddy Waters fizeram suas estréias deslumbrantes nas ondas sonoras, me juntei com amigos na tentativa de imitar o som deles em baterias e violões arranhados. Eu não valorizava nenhuma lição na minha escola tanto quanto o curso em harmonia e contraponto dado por nosso professor de música, e o exame final em música não exigia que apenas respondêssemos questões aprendidas a respeito do material de estudo (uma cantata de Bach, uma abertura de Berlioz e a sonatina para violino de Sibelius), mas também que compuséssemos uma fuga em três partes num tema determinado e continuássemos alguns compassos musicais “da mesma maneira”.

Ainda era verdade nos anos 50 e no início dos 60, quando eu era adolescente, que o rádio e o gramofone eram vastamente inferiores aos concertos ao vivo do ponto de vista acústico. Ainda era verdade que, se você quisesse explorar o repertório clássico inteiramente, você realmente precisava fazê-lo ao piano em casa. Ainda era verdade que, se você quisesse cantar ou dançar, você mesmo tinha de produzir a música, ou então contratar uma banda que a produzisse pra você. Quando eu descobri música clássica fui imediatamente atraído à amizade com outros jovens que haviam recebido a mesma experiência, e às vezes íamos de carona as 30 milhas até Londres para nos apertarmos no Albert Hall por ocasião dos Promenade Concerts ou para comprar ingressos para “O Crepúsculo dos Deuses” na Ópera. Música era, para nós, primeiramente música ao vivo, o rádio e o gramofone não eram só engenhocas desengonçadas, mas substitutos inadequados à coisa real. E a maior alegria não era ouvir, mas tocar com alguém, se você pudesse encontrar a pessoa que compensasse sua falta de habilidade.

Eu valorizo a educação musical que recebi, já que ela não apenas implantou em mim o amor pela música relevante, mas também abriu minha mente à maneira como a música é composta. Deu-me vistas internas dos trabalhos desta arte, e do papel extraordinário que ela teve na história do Ocidente. Pois não tenho dúvidas de que a harmonia e o contraponto moldaram nossa civilização, abriram-na às várias vozes que competem numa sociedade livre e as juntaram numa polifonia espontânea. Não é apenas nossa música que é contrapontística; também o são nossas instituições, nossos costumes e nossa lei. Concedemos a cada voz seu espaço e sua liberdade sabendo que elas podem ser reunidas em harmonia quando os princípios da ordem estiverem propriamente escolhidos e ensinados. Isso é parte do que aprendemos da nossa tradição polifônica.

Essa tradição não está morta. Mas entrou numa nova fase, na qual escutar e tocar está atrás de ouvir. Ouvimos música em toda parte; carregamo-la por aí em nossos ouvidos; estamos trancafiados nela como numa jaula. Contudo a experiência de escutar ativamente, como membro d’uma audiência entregue ao silêncio pela sua atenção conjunta, é incrivelmente raro. Também é rara a experiência de produzir música em conjunto, unidos pelo movimento que surge entre nós e leva cada instrumentista ao sabor d’uma onda de energia coletiva. Mais e mais — e isso é especialmente verdade aos jovens –, música é um pano de fundo para outras coisas, e raramente adentra o primeiro plano da experiência para se tornar o único objeto de atenção. Eu lamento isso por vários motivos. Isso não apenas separa os jovens do real significado da música em nossa civilização — seu significado como uma forma de pensamento sério e inspirador. Também os tranca no próprio mundo deles de experiência musical, encorajando-os a ficarem com o pano de fundo que os agrada e não explorar aquelas partes da paisagem musical que só podem ser aproximadas com dificuldade, mas que podem oferecer uma recompensa muito mais interessante.

A diferença mais notável entre minha experiência musical enquanto adolescente e a experiência musical de um adolescente hodierno, entretanto, não é a transição de escutar a ouvir, por mais significante que essa transição tenha sido. É a perda do julgamento musical. Eu fui educado a crer que a música é algo de valor, e que há e sempre haverá uma diferença entre o bom e o ruim, entre o sublime e o medíocre, entre o relevante e o vazio. Diga isso a um jovem de hoje e você provavelmente será dispensado como “julgador”. “Quem é você para criticar meu gosto?” é a resposta usual. E é difícil retrucar que você tem o direito de criticar porque seu gosto é melhor. Quando eu e meus amigos de escola exploramos o blues e o pop em bandas próprias nunca imaginamos que fazíamos algo que se comparasse sequer remotamente à experiência no salão de concertos. Víamos o pop como uma diversão agradável, da qual retornaríamos àquele mundo belo, sublime, e de jeito nenhum simplesmente agradável, onde cada nota, cada entonação e cada dinâmica importava.

Seria fácil dizer, como muitos dizem hoje, que é tudo questão de gosto, e que devemos deixar o jovem seguir ao modo dele para descobrir as coisas sozinho. Mas jovens são muito ruins em descobrir as coisas por si mesmos. É por isso que professores são necessários. Se pensássemos que não há diferença intrínseca entre uma sinfonia de Beethoven e uma canção dos Kooks, e que uma pessoa amante da música poderia atravessar a vida sem escutar Beethoven e não ser mais pobre por isso, então é claro que alegremente desistiríamos da tentativa de educar o gosto dos jovens. Todavia apenas alguém que não conhece Beethoven poderia pensar assim. Se você teve a experiência Beethoven então seu primeiro desejo é passá-la adiante, abrir os ouvidos dos jovens para o que você ouviu e contemplou maravilhado, e introduzi-los a algo que oferece não somente prazer e fascínio, mas também regozijo e conhecimento.

É por isso que a música ao vivo, especialmente música clássica ao vivo, permanece tão importante para nós. Jovens precisam entrar na presença da música. O iPod soa dentro deles com um tipo de ruído corporal familiar. Mas ele não produz a experiência que foi tão importante para a minha geração, e que permanece importante hoje, da música ocorrendo num espaço próprio — um espaço para o qual fazemos sala coletivamente assentando uma alcatifa de silêncio sobre a qual a música é demonstrada. Sem orquestras ao vivo e concertos disponíveis o verdadeiro coração da música cessará de bater, e os jovens serão desprovidos de uma das experiências mais enriquecedoras que conheço.

*

Tradução: Yuri Mayal

Bragança Paulista, 2021

Texto original: https://theimaginativeconservative.org/2020/11/heart-of-music-sir-roger-scruton-2020-timeless.html?fbclid=IwAR0r9L7apJLNtkAnZPAWgXYvT5yPPED1eBu8xtGfSSKlyzBY7NmsGGRrAds

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