Os Borrifados

Estava um dia lindo, era desses dias que convidam a sair; o azul do céu cintilava, fiapinhos de nuvens conversavam sem pressa e a brisa, toda gentil, visitava cada árvore do quarteirão; e as árvores pareciam mais robustas, suas folhas esbanjavam vigor; enfim, o dia convidava até o mais resoluto sedentário a aventuras. Roberto absorveu toda aquela maravilha da varandinha miúda — era como se um pouco da sala tivesse escorrido para fora do apartamento –, respirou fundo, pondo no rosto um legítimo sorrisão, e decidiu passear co’a família às bordas d’uma lagoa ali perto. Depois podiam lanchar e voltar a casa revigorados. “Ô sabadão abençoado!”, pensou Roberto, e deixou logo tudo preparado.

À mesa do café, Roberto anunciou sua idéia todo resplandecente; quem escutasse apenas fragmentos daquele discurso apaixonado pensaria que a família logo partiria ao Caribe ou para alguma vila peculiar escondida no Japão. Todo aquele esforço oratório era necessário não por causa das filhas, que mal agüentavam o confinamento prolongado, mas pela esposa, que vivia amedrontada e temia até se aproximar da janela. “E se o vizinho de cima tossiu cá pra baixo?”, respondeu certa vez, quando questionada sobre seu novo pavor de fenestras.

A mulher ouviu as exortações do marido com um sorriso meigo no rosto; afinal se encheu de coragem, para surpresa das filhas, e declarou:

— Já tá bom, Roberto, irei, viu?

— Nossa, vai acontecer algo bizarro hoje. — Sentenciou a filha mais velha, uma bela moça de pesados cabelos negros.

Enquanto penteava suas mechas também negras diante do espelho a mulher, pela primeira vez desde que o maldito morcego fugira d’um laboratório chinês e fora apanhado à sopa por algum desgraçado esfaimado, questionou a racionalidade dos seus medos. Ela já havia discutido com o marido inúmeras vezes, e o cara se mantinha firme: “Mulher, não confie tão imediatamente na mídia, não… eles querem injetar medo no povo, é um bando de urubu que vive da infelicidade dos outros.” E “Se não está parando de chegar gente doente, por que diminuem os leitos? Por que desmontaram hospitais de campanha? Não estás vendo que tem coisa errada aí, Clarisse?”

Clarisse sacudiu a cabeça de leve e terminou de se aprontar.

O mundo lá fora pareceu ainda mais vivo e bonito, Roberto, em júbilo, abarcou tudo aquilo com o coração e agradeceu a Deus. As garotas ladeavam as águas à frente do casal, iam conversando e implicando mais ou menos de brincadeira uma com a outra. Os esposos caminhavam abraçados. Soprou um vento gostoso e Roberto aproveitou a oportunidade:

— Tira a máscara, meu amor. Sente esse ventinho, olha que delícia!

Clarisse arregalou os olhos horrorizada, como se subitamente tivesse visto milhares de soldados virais de baionetas se atirando à carga. A resposta dela foi uma sucessão de negativas ligeiras coladas.

Não tirou, permaneceu a única mascarada do quarteto.

O passeio seguiu agradável, os arredores da lagoa restavam desertos de mais pessoas até brotar de trás d’uma árvore uma dupla de mulheres mascaradas em dobro. Elas discutiam a respeito de qualquer coisa incompreensível, em sussurros… talvez receassem acordar os vírus da região. As meninas se voltaram aos pais, a mais velha formou com os lábios: “Duas máscaras.” Roberto assentiu e Clarisse mergulhou numa confusão indecifrável.

Foi então que solas em corrida e gritos histéricos espancaram a paz da lagoa, pássaros voaram assustados; as mascaradas se lançaram sobre Roberto, xingavam, amaldiçoavam, seus olhos eram ferro e fogo, seus movimentos eram desencontrados.

: — Opa, calma aí… — ele não terminou a frase, o álcool foi borrifado na sua cara. As filhas foram discutir e tomaram álcool na cara também.

Uma das mulheres virou para Clarisse e disparou:

— É melhor usar duas! Duas! E separe desse assassino!

— Vocês endoideceram…

Clarisse foi borrifada.

*

Bragança Paulista, 2021

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