Brevidades #17

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Acostumei-me mui rapidamente a escrever sobre o que leio à medida em que avanço na leitura, de maneira que agora, quando preciso ler sem tal expediente — e muitas vezes preciso e precisarei ler sem anotações constantes, do contrário a vida trava –, me agonio sobremaneira, sinto como se estivesse sem voz. É claro que há modos de contornar o problema: posso refletir sobre o assunto; posso repassar internamente o que li; posso gravar áudios ligeiros; posso alugar minha esposa. Todavia não deixo de me agoniar por não poder escrever.

E por que não posso escrever detidamente sobre tudo o que leio? Porque o dia tem só 24 horas, e soterrado de obrigações diversas, tenho de escolher cuidadosamente quais obras serão comentadas cuidadosamente, quais renderão resenhas, quais renderão apenas notas ou notinhas, quais renderão somente conversas caseiras, quais eu devo ler quieto e revisitar posteriormente, etc.

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Sacar folhas de caderno transmutadas em bolas ou arremessá-las em cestas distantes são atividades lúdicas que a vida de escritor proporciona.

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Vi por alto que estão discutindo a terminologia exata que deve ser empregada para designar o tomara-que-caia. Pois bem, é uma discussão deveras importante, salutar como poucas. Seja como for, continuarei chamando aquele pano de “tomara-que-caia” ou “tomara-que-não-caia”, a depender de quem usa.

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Nunca achei que esses cineastinhas cults faziam filmes toscos, sem sentido ou idiotas, e esperavam a atenção das pessoas normais que acordam cedo pra trabalhar e têm pouco tempo livre. Sempre notei que tais aberrações pseudo-artísticas eram destinadas ao próprio clubinho de iluminados deles, e que das pessoas normais que acordam cedo pra trabalhar e têm pouco tempo livre eles queriam mesmo era distância; elas serviam apenas como motivo da zombaria filha do desprezo ressentido que habita os recônditos negros de suas personalidades. No fundo gente assim é como o sujeito que põe uma banana na parede ou expõe uma tela rabiscada e fica dando risadinhas dos plebeus burros que não compreendem tamanha genialidade, sem sequer suspeitar que, na verdade, as orelhas cresceram na cabeça dele, que nem ele se entende e que a piada é aquela tela rabiscada.

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