Sobre “As Pupilas do Senhor Reitor”, de Júlio Diniz

Júlio Diniz, que na verdade se chamava Joaquim Guilherme Gomes Coelho, levou uma vida especialmente conturbada por causa da tuberculose, freqüentemente tinha de interromper suas funções profissionais para cuidar da doença n’alguma vila tranqüila onde a vida era boa e meio arrastada. Foi num destes lugarejos que ele escreveu boa parte de “As Pupilas do Senhor Reitor”, sua obra mais famosa.(1)

As pupilas são duas irmãs da vila na qual se passa a história, e o reitor é o padre que as guia e guarda, e todas estas três personagens, que juntas formam o núcleo indivisível da obra, são muito bem escritas, ou seja, carregadas daquela vida própria que transborda das páginas para se hospedar um pouco no coração do leitor. Clara, a irmã caçula, é aquela mulher especial, porém inconseqüente, dotada de beleza encantadora e de alegria quase imorredoura; Margarida é uma santa, criatura extremamente altruísta e bondosa, reservada, de boniteza mais discreta. O senhor reitor é uma figura vivíssima, padre que honra o nome e a batina, homem que realmente carrega o evangelho no coração, como diz o próprio autor no início do livro; ele não se furta às suas obrigações paroquiais, e tanta disposição em servir o transforma em verdadeira ferramenta da Divina Providência.

Pedro e Daniel são os irmãos que se engraçam co’ as pupilas. Pedro é um sujeito mais viril, trabalhador incansável, geralmente tão sossegado que se apaga, de gostos simples e mente reta, principal herdeiro de José das Dornas, um dos fazendeiros mais abastados da região — José das Dornas, aliás, reúne duas características aparentemente antagônicas: seriedade e leveza; Daniel é desses rapazes cujas afeições são como barquinhos à vela desgovernados e sem tripulação, incapazes de resistir a qualquer estímulo; tanto é assim que, mulherengo patológico, cobiça a noiva do irmão.

Os personagens fora deste núcleo principal possuem vida igualmente intensa. João Semana é médico extremoso; veste-se de durão, mas tem coração amanteigado, é alma boa, talvez santa, mesmo com tantas tiradas a respeito de frades. Enxerga seu ofício de médico como verdadeiro dever sacro. A criada dele, Joana, é uma pessoa de boas inclinações, mas acostumada a artimanhas. A família Esquina, então, com todo aquele ar trambiqueiro, vivendo de fofocas e pequenas intrigas, talvez seja o destaque mais divertido do livro.

“As Pupilas do Senhor Reitor” toma como foco a vida amorosa das irmãs do título e dos rapazes de José das Dornas, especialmente Daniel. Partindo deste tema, Júlio Diniz aproveita para dar movimento aos seus ótimos personagens e à própria cidadezinha portuguesa que serve de palco para a história. Enquanto lia, presenciei brevemente uma comovente procissão de moças devotas, tomei parte numa esfolhada cheia de animação e travessuras, escutei fofocas encostado a um canto da loja dos Esquina, acompanhei o reitor em seus sagrados afazeres cristãos e passeei um pouco com o honrado médico João Semana; ouvi uma aula da Margarida, andei pela feira com Clara e vi lavadeiras à beira do rio; até me diverti com o tédio de Daniel — acostumado à cidade grande, onde sempre tinha o que fazer, o moço às vezes restava enfadado em seu quarto, e uma dessas situações engraçadas foi habilmente explorada por Júlio Diniz.

O ambiente geral é evocado mais no espírito do que na mente de quem lê, pois Júlio Diniz não se demorou em descrições, parecia satisfeito em deixar sua criação ganhar vida dentro dos peitos.

Reclamo apenas do final apressado. Não sei se aquela carreira toda dos últimos capítulos foi motivada pela doença que afligia o escritor, por pressões editoriais, por cansaço do autor, não faço idéia; sei que o fim quase abrupto da história em nada contribuiu para o engrandecimento da obra, e lamento que assim tenha sido.

1 – “As Pupilas do Senhor Reitor” chegou a virar novela do SBT em 1994. Antes disso, em 1935, o livro já tinha virado filme em Portugal.

*

Bragança Paulista, 2020

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