A Morte de Severino

Morei durante quase vinte anos no terceiro andar d’um modesto prédio em Recife.

Poucos anos depois da minha família ter se estabelecido no local, uma favela surgiu, desses aglomerados de madeira e papelão que tomam as calçadas e enchem as ruas de crianças sem grandes perspectivas. No começo foi tudo bem, inclusive fiz amizade com os garotos da favela; porém com o passar dos anos a maioria dos meus colegas de infância foram em busca de uma vida melhor – somente um se voltou para o crime – e a violência recifense cresceu numa velocidade impressionante; não demorou para que a minha rua, que já não ficava numa região tranqüila, começasse a cobrar sua taxa de sangue.

Tiros se tornaram corriqueiros, praticamente toda semana morria alguém ali. Quando ia à escola, eu trafegava pelo cenário numa espécie de estupor, às vezes passando rente a sangue fresco no asfalto ou na calçada, cumprimentando os conhecidos sem saber se os veria novamente e pedindo a Deus que trouxesse minha mãe a salvo da UFPE, onde dava aula até o fim da noite.

Infelizmente, como acaba acontecendo cedo ou tarde com a maioria dos brasileiros, me dessensibilizei com a situação, e numa noite, ao escutar os tradicionais pipocos, cheguei ao cúmulo de gracejar comigo:

– Eita, partiu mais um!

Eu mal havia acabado de falar quando ouvi o berro desesperado de Clementina, vizinha do térreo:

– Mataram meu marido! Mataram meu marido! Por que mataram meu marido?!

Empalideci e corri à varanda. A pobre mulher jogava loucamente os braços para cima ao correr perdida, sem chão, destroçada, entre gemidos e lágrimas.

Pois tinham morto Severino, o pai de família simpático e trabalhador que morava num dos três apartamentos do térreo.

Depois ficamos sabendo que ele havia se alterado numa discussão de bar e voltado em casa para pegar a peixeira, surdo aos apelos da mulher. Só que o sujeito com quem ele arranjara briga era matador e estava no bar à espera do alvo.

A história não termina aí.

A família de Severino, possessa de fúria, conseguiu enviar o matador ao inferno dias depois, num túnel próximo. Como resposta, algum parente ou amigo do criminoso despachado invadiu o terreno do prédio na surdina da madrugada, se achegou à janela do filho de Severino e disparou contra o bebê órfão. Errou os disparos por centímetros.

Este caso curou a minha apatia de uma vez por todas.

*

Bragança Paulista, 2017

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