Os Serviçais dos Hipócritas

Uma tal de Antonia cruzava, feliz e faceira, as ruas de Londres rumo ao lar, doce lar, de seu intrépido amante, um sujeito cuja sabedoria havia sido reconhecida como indispensável pelo governo britânico. Foi graças a ele que vários ingleses perderam pedaços preciosos da liberdade; graças a ele trabalhadores honestos começaram a ser olhados como bandidos asquerosos; mas Antonia não tinha que se preocupar com essas ninharias, flanava acima de todas aquelas angustiazinhas burguesas, surda a todo aquele pó efêmero que saía das bocas indignadas. Seu amante, então, o sábio semideus, não via necessidade de forçar sua loira querida a ficar em casa, que ela passeasse por onde quisesse! A liberdade é um privilégio dos poderosos!

Houve também o ministro sufocador, aquele sujeito matreiro, que indicava asfixia como tratamento precoce e, tão apaixonado por câmeras, foi desmascarado por uma que o flagrou despreocupado na sinuca.

E como não mencionar o homem sem genitais que trancou São Paulo, partiu rumo à Miami e só retornou após ver a própria hipocrisia estampada em alguns portais? Agripino, aliás, dos tiranos da pandemia, é um dos mais boçais. Alguém que acorde d’um coma e veja qualquer coletiva de imprensa do governo de São Paulo será logo subjugado pela incômoda impressão de que um andróide programado para não sentir as mais mínimas emoções humanas governa o Estado; e se essa pessoa assistir a qualquer reunião passada naquela sala agourenta do Palácio dos Bandeirantes talvez pense que o destino do povo daqui é a murcha e o luto eterno.

Há ainda aquela turma da TV, cuja língua se converte em chicote de fogo nos lombos dos inconseqüentes que teimam em se agarrar à liberdade, e que depois viaja o Brasil e o mundo, fazendo exatamente o oposto do que exigia dos reles mortais.

Os exemplos de hipocrisia revoltante abundam qual annitas tatuadas, e pouco a pouco o povo perde todos os direitos, morre de fome e é mais humilhado do que os bandidos violentos jamais foram neste país. Agora, por exemplo, a polícia invade um aniversário de família, machuca as pessoas e leva celulares e TV num procedimento que não difere muito d’um assalto. Agora um comerciante é encarcerado porque não possui o toque de Midas e precisa trabalhar pelo próprio sustento. Agora são governantes tiranos — e hipócritas — que decidem qual serviço ou produto é essencial.

Todos estes fariseus são quengos morféticos, mas tão ruim quanto eles é a base histérica que os obedece e acredita em tudo o que falam. Essa base histérica é composta por aquelas senhorinhas que derramam veneno pelos olhos quando vêem alguém sem máscara; pelos papagaios que repetem cegamente que as vacinas feitas às pressas são a única solução à pandemia; pelos parentes que enxergam as visitas a sobrinhos e netos como passeios no cadafalso; pelas pessoas que engolem, sem questionar, absolutamente qualquer imbecilidade apresentada na grande mídia e chamam de negacionista quem ousa observar um quadro mais amplo e pensar um pouquinho.

Os hipócritas e seus deboches não iriam muito longe se não tivessem à disposição serviçais tão lambões e leais.

*

Bragança Paulista, 2021

Imagem: Gentina Danurendra/ Pexels

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