Brevidades #33

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Logo na primeira página de “As Pupilas do Senhor Reitor”, de Júlio Diniz, livro publicado em 1867, o autor lembra os seguintes ditos populares em Portugal: “Quem mais faz menos merece” e “Mais vale quem Deus ajuda do que quem muito madruga”.

É claro que quem é ajudado por Deus está em vantagem, embora isso não signifique que madrugadores não possam ser ajudados, tenho pra mim que madrugadores trabalhadores são ajudados com muito gosto; mas essa história de que quem mais faz menos merece é coisa d’um despeito tão profundo, é uma confissão de incapacidade tão desabrida que estranho tal sentença ter se aninhado no coração d’um povo corajoso e explorador como o povo português.

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“Pedro era, de fato, o tipo da beleza masculina, como a compreendiam os antigos. O gosto moderno tem-se modificado, ao que parece, exigindo nos seus tipos de adoção o que quer que seja franzino e delicado, que não foi por certo o característico dos mais perfeitos homens de outras eras.”

“As Pupilas do Senhor Reitor”, de Júlio Diniz, 1867.

Parece que esse tipo de frescura é cíclica. Há épocas em que elas querem os lenhadores e guerreiros brutos, másculos, que esbanjam vigor físico. Há épocas em que elas querem pseudo-princesas afetadas nascidas em corpos errados.

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Júlio Diniz, d’um padre da história que conta, diz o seguinte:

“Tinha o evangelho no coração — o que vale mais ainda do que tê-lo na cabeça.”

Oras, quem tem o evangelho no coração é o Sal da Terra, a luz no meio das trevas. Trazer o evangelho no coração, imagino, pois não o trago no coração –, é caminhar em paz perto de Cristo, às vezes sofrendo pelas injustiças dos homens e pela infindável estupidez que assola as almas, mas em paz, numa paz inabalável alicerçada na Vontade divina.

Sigo a leitura curioso pra ver se o padre do livro é realmente rochedo desse jeito.

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“Amantes há que celebram os seus amores, e até as suas infelicidades amorosas, sempre em estilo de anacreôntica — esses têm o amor alegre; outros que, quando amam, embora sejam ardentemente correspondidos, suspiram, procuram os bosques solitários, que enchem de lamentos, e as praias desertas, onde carpem com o alcião penas imaginárias — têm estes o amor sombrio; a outros serve-lhes o amor de pretexto para espancarem ou esfaquearem quantas pessoas imaginam que podem ser-lhes rivais ou estorvos, e, nesses acessos de fúria, chegam a espancar e esfaquear o objeto amado — são os do amor barulhento e intratável; há os que emudecem e embasbacam diante da mulher dos seus afetos, que em tudo lhe obedecem, que a seguem como o rafeiro segue o dono, e experimentam um prazer indefinível em adormecer-lhe aos pés — pertencem aos do amor impertinente e estúpido. Poderia ir muito longe esta classificação , se fosse aqui o lugar próprio para ela.”

Júlio Diniz, em “As Pupilas do Senhor Reitor”

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