O Reitor Rochedo

No décimo segundo capítulo de “As Pupilas do Senhor Reitor”, Júlio Diniz pinta a seguinte situação, que vai abaixo resumida, evidentemente.

Ao redor d’uma mesa de taverna, estufados por vinhos e alheios às suas obrigações mais elementares, os homens iam apostando as moedas que ajudariam, se fossem empregadas d’outra forma, a curar suas mães e alimentar seus fedelhos. Ocupavam-se de verdade apenas das cartas e da algazarra, e assim gastavam as boas horas do dia quando o pároco entrou na taverna. Oras, o padre havia se imiscuído entre os jogadores porque já trazia as algibeiras vazias das esmolas que tinha distribuído aos pobres; o sacerdote havia caminhado longamente, amparado só por Deus e sua bengala, e visitado as casinhas desafortunadas dos miseráveis e convalescentes; havia ajudado a preparar remédios, levara uns trocados e pregara a Santa Palavra de Deus em cada lar melancólico de sua jornada; parou ao descanso, pois ainda tinha gente a visitar, e se viu desprovido financeiramente. Assim não podia ser, as visitações tinham de continuar, era seu sagrado dever!

Pois o homem entrou na taverna, e ao se deparar com tanto desperdício e falta de caridade deu aos jogadores um sermão arretado. Não somente aos jogadores, sobrou até para o taverneiro, que aliás, o padre considerava o sujeito mais culpado de todos: como ele podia permitir uma coisa daquelas sabendo da situação doméstica dos seus freqüentadores? Oras, a mesa era composta por dois devedores, um deles com cinco filhos e mãe moribunda, outro sujeito cuja mulher acabara de sair da cama e cuja filha se esfalfava pra pôr o pão na mesa, outro que tinha familiar necessitado, e mais um infeliz cujo moleque pedia esmolas!

Pois o padre, co’a força do sermão — uma das frases foi esta: “Que importa a miséria que vai por casa, se não falta o dinheiro para o vinho e para o jogo” –, e certamente auxiliado pelo Espírito Santo, tocou naquelas consciências e recolheu boa parte do dinheiro reservado ao jogo para as famílias que ainda visitaria naquele mesmo dia. E isso não é tudo, o homem estava inspirado, pegou as cartas sebosas dos vagabundos e atirou ao fogo!

Esse padre é rochedo demais!

*

Bragança Paulista, 2020

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