Seu Vieira

A esposa o surpreendeu de pé, encostado à parede do quintal, olhando apaixonado os passarinhos cantores presos em gaiolas de madeira. Ele sorria, e encantado soltava o espírito aos chilreios e cantoria. O sol havia apenas mostrado as franjas ao mundo, e a rua, de casas simples e baixas, dormia. O vira-latas estava arriado aos pés do dono, tranqüilo, tranqüilo.

A mulher, uma senhora pequena e gordinha, chegou perto do marido e acariciou o ombro dele.

: — O café tá pronto, homem.

— Traz aqui, mulher. — Pediu, deitando na esposa o mais carinhoso dos olhares.

Ela voltou trazendo o café servido num copo de requeijão e um pãozinho amanhecido untado de margarina. Seu Vieira comeu e bebeu com gosto, ainda emocionado com os pássaros. O cachorro se sentou esperançoso, recolhia às lambidas os farelos que caíam.

: — Olhe, vou comprar água hoje. — Ela informou.

— Tá certo.

— Me dê dinheiro pra carne do almoço.

— Precisa de carne hoje não, mulher, a gente comeu carne ontem. — Terminou o café e passou o copo à esposa:

— Vou tomar meu banho.

Dali a pouco dava a ré no táxi com todo o cuidado do mundo, pois a garagem era bem apertada. Girou o volante às mil gentilezas, aprumou o veículo e foi fechar o portão. A mulher se irritou:

— Ô, homem, deixe que eu fecho! — o cachorro lambeu a grade. N’alguma casa próxima, outro cão latiu.

— Não, entre pra dentro, vá dormir mais.

Enquanto ele trancava o portão, o entregador de jornais passou de bicicleta lançando encomendas nuns quintais.

: — Bom dia, seu Vieira!

— Dia, José!

Seu Vieira assentou de novo no carro, puxou a porta, engatou a primeira e foi trabalhar.

O táxi não era dele, e por isso era dirigido com cuidados extras; seu Vieira era daqueles que cuidavam mais das coisas dos outros, e se orgulhava por nunca ter nem trincado o carro e por ter levado pouquíssimas multas, todas injustas.

Ele chegou ao ponto de costume antes das sete, uma larga calçada perto d’umas vendas e d’um ponto de ônibus, desembocadura de uma ruazinha sem asfalto ladeada por casas simples dos mais variados formatos e portões. Quando lá batia vento mais vigoroso uma tênue nuvem de pó de areia invadia a calçada e a avenida Mascarenhas de Moraes, logo em frente, e seu Vieira se precavia, deixava o carro todo fechado.

Só mais um taxista dividia o ponto ali, seu Roberval, mas ele quase nunca chegava tão cedo.

Seu Vieira gostava daquele horário naquele local por várias razões, mas a principal era que as pessoas que perdiam o ônibus importante de manhãzinha eram mais propensas ao desespero, e portanto ao gasto exorbitante com o aluguel de carros alheios.

O taxista ficou sentado, com as portas abertas, observando discretamente as pessoas na parada de ônibus. Uma senhora muito baixa e volumosa, certamente motivo de irritação aos passageiros de coletivos lotados, pois agia dentro dos ônibus como uma espécie de força espremedora não imediatamente identificável, cavoucava a bolsa gorda à procura de qualquer ninharia imprescindível; um velho de calças jeans e camisa de botão fechada só até a metade do tronco olhava duro para a avenida, como se o ônibus que esperava fosse um filho atrasado nos deveres cotidianos; uma estudante de cabelos lisos, longos e escuríssimos retocava o batom e contemplava, exigente, a própria cara, que aliás era retangular, grande e chupada; um homem vestido com alguma pompa andava impaciente pela calçada, conferindo o relógio a cada par de segundos, como se esquecesse do horário que acabara de constatar, ou como se o sofrimento da ansiedade fosse aprazível. Havia em seu gesto algo da inutilidade de chamar várias vezes o mesmo elevador.

As outras pessoas no ponto se comportavam de maneira mais homogênea: olhavam sem ver os carros que passavam correndo e apenas esperavam, quietas, a continuação da rotina que pareciam lamentar. Seu Vieira estudava cada uma daquelas faces abatidas enquanto palitava os dentes sem necessidade. Após uns minutos empenhado naquele exame, começou a cochilar.

O cochilo não virou sono solto porque alguém estapeou amistosamente a carroceria do carro:

— Tá livre, seu Vieira?

— Tô, tô.

Era um rapaz que pegava seu táxi pelo menos duas vezes por semana para ir ao colégio, filho de uma professora universitária que também o chamava pelo menos duas vezes por semana.

O jovem foi entrando à vontade, fechou a porta, acomodou a mochila aos pés, e enquanto o carro deslizava para o asfalto, pôs o cinto.

: –- Como o senhor tá, seu Vieira?

— Olhe, tem dia que dói é tudo. Semana passada mesmo fiquei um dia inteirinho em casa.

— Mas eu não já disse pro senhor ir ao médico ver que diabo é isso?

— É velhice, é idade chegando. — Seu Vieira cantava e prolongava as vogais no meio das palavras.

— Tá com quantos anos, seu Vieira?

— Pra mais de cinqüenta. Acho que cinqüenta e seis ou cinqüenta e oito já, visse?

— O senhor acha? –- o rapaz riu.

— Fique se rindo não, depois de certa idade fica triste contar aniversário.

Os dois se estimavam muito. O jovem era filho de mãe sozinha e via no taxista um tipo de figura paterna, e seu Vieira, que só tivera uma filha, nutria pelo rapaz algo próximo do carinho paterno. Mas nem um nem outro ousava expressar os sentimentos que transpareciam óbvios a qualquer um que tomasse parte naquela convivência.

Seu Vieira havia acabado de deixar o rapaz na frente do colégio, que ficava numa rua arborizada perto do prédio largo e cinzento da Celpe, quando seu telefone tocou. Era a mãe do jovem perguntando se o taxista estava livre para levá-la à universidade.

: — Livre tô, só tô longe, aqui perto do centro. Acabei de deixar seu filho…

— Eu espero.

Aí ele foi.

Dona Hebe era uma senhora boa, conversadeira, que se orgulhava bastante dos seus títulos acadêmicos. Sorria envaidecida quando a chamavam de “doutora Amaral”. O marido havia morrido quando o filho único tinha apenas meses de vida, assassinado pelo parente de um cliente insatisfeito. Toda vez que contava essa história dona Hebe Amaral a encerrava com a seguinte sentença, promulgada em tom contundente e triunfal:

— São os perigos da advocacia. — Seu Vieira já sabia o roteiro, ouvira aquele conto dezenas de vezes, e emendava:

— A senhora avisou pra ele não pegar aquele caso.

— Avisei, seu Vieira, avisei. Mas quem é que me escuta? Quem não me escuta, se lasca.

— Eita, meu Deus, então tô lascado.

— O senhor ainda não foi ao médico?

— Pra quê, dona Hebe? Pra saber que vou morrer? E não vai morrer todo mundo mesmo?

— Credo, seu Vieira, coisa tétrica.

O taxista soltou uma gargalhada gostosa.

O carrinho do Roberval entrava na calçada bamboleando, reclamando das juntas. Tinha uma das portas amassadas, a pintura da carroceria desbotava, o painel era arranhado e os bancos carcomidos. Seu Vieira chamava aquilo de carroça.

: — Tem dinheiro pra beber de manhã, mas não tem dinheiro pra ajeitar a carroça. — Dizia o veterano ao colega, que mal chegava, parava numa vendinha para tomar pitu.

— Tá doidinho que os hômi te levem, tá não? — continuava.

— Me deixa, seu Vieira. — Retrucava o outro, numa voz rouca ligeiramente impaciente. Às vezes seu Vieira deixava, às vezes, não.

— Olhe, quando você bater essa carroça aí porque encheu a cara de pinga, lembre dos meus avisos. — Roberval olhava enviesado, segurando o copinho de cachaça numa postura muito séria, depois virava pra menina da venda:

— Pronto, já acordei, põe na conta aí, fia? — depois, passava ao lado de seu Vieira:

— Velho chato.

— Você é um menino, né Roberval? — cantava seu Vieira, se abrindo todo. Depois dava conselhos sinceros, do coração, e lembrava algumas de suas histórias tristes na esperança de que o colega mudasse de vida. Roberval escutava, considerava aqui e ali, mas assim que a palestra terminava, quase sempre por causa de ligação chamando seu Vieira ao dever, ele colava a pança à mesma venda pra tomar mais uma e xavecar a moça.

Quando seu Vieira ia trabalhar direto de casa, gostava de passar rente ao seu ponto, e quando via o colega bebendo e paquerando disparava:

— Vá trabalhar, Roberval!

O outro se virava como assombrado, e reconhecendo o carro do colega, que já ia distante, gritava:

— Me deixa, seu Vieira!”

Seu Vieira tinha seus lugares preferidos no Recife, gostava muito de parar na beira d’alguma ponte pra ver o Capibaribe cintilando sob o sol forte, numa majestosa indiferença a tudo em volta, alheio à vida exuberante que sutilmente despejava na cidade; ele também gostava da calmaria arborizada do bairro de Setúbal, que mesmo com tantos prédios altos mantinha aquele aspecto meio sombrio, meio encantado, de bosque misterioso.

Porém o lugar mais especial em seu espírito era reservado ao Pátio de São Pedro. Seu Vieira parava lá ao menos uma vez por semana, sentava sempre no mesmo canto e contemplava demoradamente a igreja, pensando na cambada de erros do passado.

As idas ao pátio de São Pedro rendiam namoricos com o futuro, futuro que era preparado com ansiedade contida e co’a maior discrição. Seu Vieira não queria dizer à sua velha que tinha comprado um terreninho em Tamandaré e que todo mês levava lá uns tijolinhos.

A coitada da mulher já sofrera tanto na mão dele que dar a ela uma velhice sossegada, perto da praia, com muito mimo e água de côco, era o sonho maior de sua vida. O terreninho ficava numa rua ainda sem asfalto mais pra trás na cidade, rua que turista não ia, e estava bom demais. Eles tinham um coqueiro. Seu Vieira sorria quando lembrava que tinha um coqueiro.

Às vezes um conhecido aparecia e se achegava a puxar prosa. Seu Vieira não gostava, aquele era o canto dele, o momento dele. Às vezes conversava a contragosto, mas às vezes dizia:

— Vá fazer suas coisas, me deixe aqui um tiquinho.

E ele ficava olhando a cruz com olhos cansados, lembrando de sua vida devassa, de todo o sofrimento que havia causado a uma mulher tão boa, da negligência com a filha. Sob o sol, queimado pela vergonha que sentia, seu Vieira olhava a cruz com os olhos molhados, e lá do fundo do coração pedia, com toda a sinceridade que conseguia:

— Perdão, perdão; perdão.

Só que, do mesmo jeito que tinha seus locais favoritos, o taxista desgostava severamente de algumas paragens. Não suportava passar perto da Cruz do Patrão, não prezava passeios pelo Prado e detestava a Praça do Arsenal… toda vez que tinha clientes às bandas da praça hesitava, até passava mal. É que, além de não apreciar o aspecto estranhamente macambúzio do local, a praça trazia-lhe má sorte.

Quando ia lá, se o passageiro demorava, seu Vieira preferia se perder a pé pelas ruas adjacentes a esperar no carro, e freqüentemente jogava conversa fora em cima da estátua de Antônio Maria, na Rua do Bom Jesus. De vez em quando até parecia que seu Vieira escutava algo do homem de pedra, pois seu olhar se perdia pelo antigo caminho do bonde e vagava reflexivo sobre os paralelepípedos da via.

Às vezes, quando ele sabia que o cliente ia demorar, seu Vieira ia até perto do rio ver o catamarã passar. O barco corria mais ou menos cheio, a presença de muita ou pouca gente dependia do horário, do tempo e do dia. Quando olhava o catamarã nas águas, o taxista sorria, esquecia momentaneamente da Praça do Arsenal e respirava fundo, dizendo para si mesmo que cruzaria o rio daquele jeito na semana que vem. Mas ele nunca lembrava daquela sua vontade de passeio até as vistas deitarem satisfeitas na alva embarcação.

No retorno a pé para a ominosa praça, fosse a partir de Antônio Maria ou a partir do Catamarã, a negrura dos sentimentos maus se espraiava por sua alma, fria e visguenta, e diluía suas esperanças mais simples.

Numa tarde enfarruscada, um sujeito mulambento, parecendo maloqueiro, deu a mão na Conde da Boa Vista. Seu Vieira tinha lá suas opiniões a respeito de como rapazes deviam se vestir e se portar, e veterano na guerra da vida, reconhecia marginais tão bem quanto reconhecia trambiqueiros, nos dois casos seu instinto apitava ligeiro.

Só que aquele dia tinha sido fraco, ele conseguira apenas uma corrida de vinte e oito reais. Seu Vieira, portanto, abafou o instinto dizendo a si mesmo “Dá nada, não”, e parou o carro.

O meliante entrou atrás, sem boa-tarde, e sentou arreganhado. Seu Vieira já fez cara de quem não gostou do folgado, e quando ouviu o destino do passageiro seu coração gelou e ele até fechou os olhos atormentado.

: — Praça do Arsenal, coroa.

Um jovem daqueles podia ir à praça andando, não podia, não? O sol nem ardia, o tempo nublado estava gostoso para andar.

Seu Vieira já fez logo sua conjectura: o cabra tinha assaltado alguém por perto e queria se evadir.

: — Bora, coroa, Praça do Arsenal.

Seu Vieira foi.

Não tinha rodado duzentos metros quando seu celular tocou; era dona Hebe.

: — Ô, dona Hebe, agora tô com passageiro, se a senhora tivesse ligado um tiquinho mais cedo… — lamentou. A cliente proferiu algumas palavras do outro lado.

— Tá bom, dona Hebe. Tchau.

O breve trajeto até a Praça do Arsenal, esticado pelo trânsito arrastado do Recife, foi muito desagradável para seu Vieira, o taxista reparou que o passageiro examinava o carro, as suas roupas e até seu relógio de atacado. O passageiro também buscava o rosto do taxista, como se quisesse adivinhar pensamentos e intenções. Seu Vieira tentava se consolar com a curta distância da corrida e repetindo de si pra si: “Dá nada, não.”

Quando o carro parou ali por perto da Torre Malakoff o passageiro disse:

— Espere aí, viu coroa? Eu não fico aqui, não. — Desceu e fechou a porta com força desnecessária. Seu Vieira na mesma hora pensou em ir embora, arrancar e sumir dali.

: — E vou ficar no prejuízo, é? — falou sozinho. — Tô dando carona a vagabundo agora? Vou ficar, fugir não é coisa de homem.

Mas aquela praça mexia com seu Vieira, de repente todo o mundo que passava parecia suspeito ou especialmente enfezado, e a cúpula de nuvens carregadas, escuras, parecia sufocar a cidade, seu Vieira começou a sentir um negócio, um comichão ruim e indistinto que passeava pelo interior do seu tronco, ora cutucando seu coração, ora torcendo seu estômago.

Ele saiu do carro agastado e relanceou a vista ao redor, como desorientado. O marginal não tinha dito se demorava e seu Vieira também não perguntara. Sentiu a boca seca, mas resistiu à sede.

“Dá nada, não”, pensou.

Conferiu o relógio e, ao ver que começava a passar das cinco da tarde, se inquietou mais.

: — Mandei sair do carro, coroa? — ouviu.

O sangue de seu Vieira ferveu e ele já mirou o rapaz com os olhos injetados:

— É o quê, moleque? Tá pensando que manda em mim, é? Pois manda não!

O marginal não esperava uma reação daquelas, tanto que até desacelerou os passos. Porém ele se recompôs logo:

— Bora, coroa, entra aí e vamos!

— Não vamos, não, pague a corrida e arrume outro carro, seu desaforado. Pague a corrida que não dou carona a vagabundo.

O meliante puxou rápido uma pistola e apontou-a ao taxista assim, na cara da sociedade. Pessoas que andavam por perto apertaram as passadas, uma senhora soltou “Meu Deus, vixe Maria…”, e teve um adolescente que saiu correndo em direção oposta.

: — Quer ver se eu não mando em tu, coroa? Hã, velho brocha? Entre no carro!

— Eu não vou entrar!

O som do disparo imiscuiu-se ao som do vidro estilhaçado e foi seguido instantaneamente pela gritaria geral do povo.

: — O próximo é em você! — avisou o bandido, se aproximando.

: — Cabra safado! O carro não é meu! — disse seu Vieira, entrando. O criminoso sentou no banco de trás e o táxi cantou pneu.

— Alma sebosa. — Grunhiu seu Vieira. O criminoso não disse nada, só manteve o cano da pistola encostado na cadeira do motorista. Quando já entravam na Avenida Agamenon Magalhães, o bandido começou:

— Precisava disso, coroa? Não precisava disso.

E seu Vieira só pensava que não tinha um filho d’uma quenga e d’um corno d’um guarda pra notar sua janela estourada e mandar parar o carro.

: — Me deixe ali por baixo do Joana Bezerra, perto do fórum. Qualquer lugar por ali tá bom.

O táxi parou onde o bandido queria. Seu Vieira queimava por dentro, era muito desaforo e muito prejuízo num dia só. Como se não bastasse, o sujeito ainda não tinha descido.

: — Já chegou, desça. — Falou seu Vieira, controlando a raiva, pois não queria mais danos causados ao carro do chefe.

— Desça você, o carro fica comigo.

— Mas nem pensar…

Seu Vieira levou duas coronhadas no rosto que o puseram grogue, à beira do desfalecimento. Percebeu, de modo muito difuso, sua porta sendo aberta. Sentiu-se arrastado para fora de sua cadeira e jogado no asfalto. Viu, entre piscadas demoradas, as rodas do táxi se afastando.

Um carro passou ao seu lado na via, depois outro. Seu Vieira rolou desgraçado para a calçada e quis sentar, mas não conseguiu. Meio deitado, com a camisa desarrumada e o rosto machucado, tonto, seu Vieira chorou. Só que o choro não durou meio minuto. “Engole esse choro, tu és sujeito homem. Engole o choro.” Pensou.

Dali a pouco, tentou sentar de novo e conseguiu. Ficou sentado remoendo raiva, vergonha e frustração por um bom pedaço de tempo. Um homem parou para ver se estava tudo bem, se ele precisava de ajuda, mas seu Vieira o dispensou com um ligeiro palavreado pegado e confuso mais gestos impacientes.

Quando sentiu que podia levantar, seu Vieira cambaleou até o ponto de ônibus mais próximo e pegou o rumo de casa no coletivo. Foi alvo de olhares e especulações dos demais passageiros. Sentado ao lado dele estava uma menina bonita, toda arrumada, que de vez em quando punha nele olhos piedosos, como se lamentasse não poder ampará-lo.

Seu Vieira seguia viagem quieto, contemplando através da janela sua expressão dura e trancada, às vezes desanuviada numa tez serena. Porém a tranqüilidade logo desaparecia de seu rosto golpeado e seus olhos faiscavam de fúria. Entre um extremo e outro, o taxista só pensava: “Que humilhação, meu Deus, que humilhação…”

Foi chegar no bairro que morava lá pelas sete e meia; arrastou os sapatos pela rua de casa e demorou para destrancar o portão. Um vizinho que tinha o hábito de sentar à calçada todo início de noite se desencostou da cadeira, surpreso, e perguntou:

— Cadê o carro, seu Vieira? — a esposa de seu Vieira apareceu no quintal e se apressou afoita ao portão, dizendo:

— Homem de Deus, pensei que já era tua hora! Eu ligava, ninguém atendia… — a coitada, descabelada, trazia a cara inchada de choro. O cachorro lambia, triste, os pés do dono.

— Acontece, mulher, não fique assim, não, venha. — Tomou a senhorinha nos braços e apertou-a junto a si.

— E o carro, seu Vieira? — ainda quis saber o vizinho.

— Tá emancipado.

Já era madrugada grossa e Seu Vieira julgava que não dormiria, pôs-se a remoer longamente o acontecido estirado na cama velha, mas seu corpo chiou muito e o taxista, esgotado e apanhado, dormiu enquanto a mulher passava os dedos carinhosos em sua testa. Dormiu bem pesado, transmutado em pedra.

Na manhã seguinte, ele escutava os passarinhos encostado à parede com os olhos vazios voltados à garagem também vazia. A mulher foi se chegando, triste, co’os pés arrastados, o vira-latas manso à tiracolo.

: — Seu café, homem. — Como que desperto de transe, Seu Vieira mirou o pires que continha o copo de requeijão e o pãozinho margarinado.

— Obrigado, mulher.

Mas ele não comeu nem bebeu, ficou ali segurando o pires, olhando para a garagem. Pareceu a seu Vieira que até os trinados dos pássaros desciam tristes dos bicos.

: — Coma, homem. — Instou a mulher suavemente, angustiada, apertando uma mão na outra. O vira-latas ainda olhava fixo para a região onde os farelos costumavam cair.

Seu Vieira comeu e bebeu qual autômato, sem sentir o gosto de nada. Todo o interior dele era uma desolação só, sofrera um incêndio por dentro e agora só restavam tocos e cinzas.

Quando o marido terminou o desjejum e passou pires e copo à mulher, a boa senhora não se conteve e perguntou o que ele ia fazer.

: — Fazer B.O, minha velha. Fazer B.O. e falar com o dono do carro. – Respondeu desanimado.

— Ô, homem, descanse hoje, não se estresse com essas coisas.

— Eu descanso amanhã, minha velha, ou n’outro dia.

Dito e feito, depois do banho, já vestido pra sair, seu Vieira pegou no telefone e discou ao Dr. Francisco, o dono do táxi roubado e de mais um punhado de carros.

: — Seu Vieira! — começou animado o Dr. Francisco.

— Homem, não me atenda alegre que seu carro foi roubado.

— Como foi roubado, seu Vieira? Que presepada é essa?

— Foi roubado, Dr., um meliante tomou o carro, me jogou no meio da rua e tudo!

— Você tá bem?

— Tô vivo, graças a Deus. — Seu Vieira se tranqüilizou, aquela pergunta, feita naquele tom, era sinal de que não iam desabar mais problemas sobre ele.

— Fez B.O.?

— Vou fazer assim que terminar de falar com o senhor.

— Faça B.O. e depois passe aqui, eu não tenho carro livre pra te dar, mas você não pode ficar sem serviço; a gente conversa.

— Obrigado, viu, Dr. Francisco. Vou retribuir tudo o que o senhor fez por mim.

— Deixe de besteira e vá fazer o B.O. Passe aqui depois. Tchau.

— Tchau, Dr. Francisco.

Desligaram. Seu Vieira deu um beijo demorado na testa da mulher enquanto sacudia o pé para afastar o cachorro que teimava em lamber seu sapato e tomou o rumo da delegacia.

Quando seu Vieira acabou de ser atendido e saiu da sala viu a delegacia cheia. Onze pessoas assaltadas no mesmo ônibus esperavam atendimento de pé, impacientes; um sujeito, a figura da desesperança, aguardava largado numa cadeira pequena, de braços cruzados sobre a barriga e olhos vagos; um grupo de policiais passava co’uma dupla adolescente algemada e descamisada; um coroa com ares de funcionário público falava muito alto ao celular, contava, eufórico e indignado, que haviam levado seu carro; num canto obscuro, uma moça chorava amparada por uma senhora mais velha, talvez mãe ou tia dela. O som d’uma sirene de viatura invadiu o recinto e seu Vieira entendeu que nenhuma providência séria seria tomada a respeito do seu táxi.

Contava somente com Deus, com o Dr. Francisco e com ele mesmo. Foi ver o Dr. Francisco.

Dr. Francisco o recebeu como a um irmão. O homem estava triste pelo carro perdido, contudo mais se angustiava era pela situação de Seu Vieira, companheiro de décadas e taxista excepcional. Dr. Francisco ignorou as negativas de seu Vieira e mandou servir suco; também fez o homem abatido aceitar um maço de cédulas.

: — Pegue, não se avexe, não. Deus me livre desamparar os amigos, seu Vieira.

— Dr. Francisco…

— Assim que vagar um carro eu boto você nele.

— Dr. Francisco… — seu Vieira reuniu todas as forças pra manter os olhos secos; as faces avermelharam de qualquer jeito, e o homem abaixou a cabeça confuso, ensaiando meneios desajeitados de agradecimento. Seu Vieira estava grato, mas se sentia dolorosamente humilhado.

— Não se avexe, não. — repetiu Dr. Francisco, firme, com uma mão no ombro do amigo. — A vida aqui embaixo é assim mesmo, Vieira. Não se avexe, meu cabra.

Seu Vieira passava os dias confinado em casa, comendo pouco pra não dar despesa, não queria gastar o dinheiro do Dr. Francisco e se alimentava mesmo era daquelas marmitas de raiva e melancolia que só lhe faziam crescer uma frustrante impotência furiosa. Ele só queria achar aquele disgramado e acertar as contas d’uma vez. Que humilhação, meu Deus! Além disso, como eles iam comer dali a duas semanas? O terreno de Tamandaré teria que ser vendido, o cabra-safado talvez tivesse roubado até a paz de seu outono, talvez tivesse roubado os últimos anos de sossego de sua velha.

Roberval devia favores a Deus e ao mundo, e seu Vieira, como parte do mundo era, naturalmente, um dos credores do colega. Sendo assim, ele começou a acalantar a idéia de passar um dia inteiro rodando a cidade com Roberval munido de seu antigo trezoitão, sempre disposto a cuspir bala em vagabundo. Seu Vieira não praticava o tiro havia muitos anos, mas mira para o desgraçado haveria de ter, haveria de ter, sim.

Quando Roberval chegou ao ponto, seu Vieira já foi entrando no carro do colega, sentando e pondo o cinto.

: — Nem saia da carroça, Roberval. — Bateu a porta.

— Vieira, tu andavas sumido, fiquei preocupado, agora despreocupei e quero mais é que o senhor desapareça de novo. Isso é jeito de entrar no carro dos outros?

— Roberval, você me perdoe, mas vou ter de cobrar aquele favor que fiz, estás lembrado?

— Eu não tô lembrado de favor nenhum, seu Vieira.

— Deixa eu ligar pra tua esposa que num instante tu…

— Lembrei!

— Pois então vamos rodar.

Seu Vieira era o desconforto em pessoa.

Os dois andaram pelas principais avenidas da cidade, seu Vieira atento qual ave de rapina, Roberval desanimado, bufando o tempo todo.

: — Tá vazando, Roberval?

O carro estava parado entre dois coletivos na faixa de ônibus da Avenida Caxangá, um sol dos diabos tostava tudo e mais um pouco. Roberval olhou para seu Vieira com a cabeça meio caída, com o semblante vazio. Bufou.

A caçada com Roberval fora infrutífera e Seu Vieira não conseguia mais dormir, estava num ponto de desmaios a contragosto, tamanha a sua agonia com a honra ferida e com o espectro da fome, que já espiava por frinchas, ansioso para entrar em casa. A necessidade de vender o terreno em Tamandaré, o consolo de sua velhice, a redenção de seus erros com a velha mulher que jamais havia desistido dele, também atrapalhava seu sono, esmagava-o desde o avesso. Seu Vieira teria de postergar os mimos e a água de côco; em breve ele não teria mais coqueiro.

Todavia o que mais lhe comia as entranhas era não ter ido à desforra pela humilhação que aquele marginal o havia imposto. “Eu só queria dar um tiro naquele filho de quenga, só um.” Um tiro lavaria sua honra e o colocaria em paz instantaneamente, justificado, pronto pra trabalhar com mais ardor do que nunca e cobrir todos os prejuízos materiais crias da catástrofe do assalto.

Numa madrugada, após rolar indefinidamente nas cobertas, sentar na cama e andar angustiado pelo quarto escuro, aceitou o café que a mulher preparara e se resolveu a só voltar pra casa se tivesse dado o tiro no bandido. Comunicou a decisão à esposa, que desesperou e usou em vão todo repertório de súplicas para dissuadi-lo. Ele tirou o trezoitão do esconderijo sob um piso falso e o carregou com as cinco balas que tinha, mouco aos apelos de sua senhora.

: — Não se aperreie, não, que isso é coisa de homem. É ele ou eu. — Põs a arma na cintura, coberta pela camisa desarrumada. O cachorro lambeu seus sapatos.

: — Homem de Deus, não faça isso, não precisa disso; ah, meu Pai amado, por que tanto castigo? Vieira, vá deitar, deixe dessas coisas.

— Não me impeça, mulher! Não me impeça, que ficar assim eu não agüento mais!

Quando seu Vieira saiu a mulher ficou chorando no portão, chamando o marido; um vizinho acordado por aqueles lamentos doídos se achegou, pensando até que o taxista havia morrido, e assim que soube da situação seguiu a rua meio correndo; ao redor, janelas começavam a se iluminar, cachorros latiam, e uma senhora de cabelos assemelhados a ninho de pássaro saiu devagarzinho ao quintal, curiosa, abraçando o próprio corpo.

O vizinho alcançou o marido da mulher desesperada, e já quase sem fôlego, pois era grande e rechonchudo, gritou:

— Seu Vieira! — Vieira parou, mas não olhou pra trás.

— Vieira do céu, tua mulher tá lá doida chorando no portão… isso não se faz, Vieira, volte pra casa, vamos conversar… me conte os negócios aí…

— Adriano, vá pra casa, que isso não é da sua conta.

— Mas sua mulher, seu Vieira…

— Depois eu me resolvo com ela. Vá pra casa. Deite que tá cedo.

Adriano não teve mais o que dizer, e seu Vieira retomou os passos decididos.

O sol achou seu Vieira encostado cabisbaixo numa borda da ponte Duarte Coelho, no centro do Recife. O homem navegara por conta a perigosa madrugada da capital pernambucana, e agora se amparava no próprio cansaço enquanto ônibus, carros e motos cruzavam alguma das quatro faixas diante dele. Seu Vieira olhou embaciado à vida matinal que, devagar, se descortinava ao derredor. Os prédios tão familiares pareciam-lhe tão estranhos… àquela hora, em outros tempos, ele já estaria acordado tomando seu café, escutando os passarinhos… virou-se para o Capibaribe e fechou apertado os olhos. “Que canseira, meu Deus, e não vi nem sombra da alma sebosa.”

Seu Vieira decidiu comer alguma coisa ali por perto antes de continuar sua busca. Mesmo que não lograsse acertar as contas com o bandido que lhe tomara o sustento, seu Vieira já se sentia melhor pelo esforço empreendido, pela decisão de homem que havia tomado. De qualquer forma, não desistiria tão fácil, só pararia quando caísse.

Comeu e bebeu angustiado. O café do boteco não era bom como o de sua esposa; o ambiente estreito e escuro parecia-lhe sujo e hostil; seu Vieira tentou comer rápido, mas se engasgou; um sujeito próximo recomendou, em tom de zoeira:

— Cuidado, meu coroa!

O taxista engoliu a raiva junto com o pão, pagou e saiu sem esperar os centavos do balcão.

Já passava das onze da manhã quando seu Vieira chegou novamente à ponte Duarte Coelho. Estava suado, esgotado, no fundo nem sabia como ainda andava, e também não sabia como voltaria pra casa. Havia subido e descido a Conde da Boa Vista várias vezes, analisando semblantes de tipos que lembravam seu alvo; havia batido a Rua do Príncipe e todas as ruas menores no entorno da Universidade Católica; havia explorado a Rua da Aurora e parado diante d’algumas daquelas casas coloridas a fim de observar os passantes; sentara abaixo dos maciços pilares erguidos na fachada imponente do Palácio da Justiça; por fim, sentindo-se derrotado, se arrastara até o Pátio de São Pedro para contemplar a Igreja e restabelecer um pouco de paz no espírito. Ajoelhado bem no meio do pátio, indiferente a olhares, pedira perdão pelos pecados e proteção à esposa.

Agora as forças já o abandonavam por completo. Via o catamarã se aproximar pelo rio, via os carros passando e já não via as pessoas. Seu Vieira custava a assumir a derrota, tanto custava que não a assumiu, pensou em esticar os esforços ao Marco Zero, mas notou que não teria necessidade de ir mais longe. Andando pela mesma calçada sua, vinha o malfeitor desgraçado, todo faceiro, despreocupado. Seu Vieira, energizado de triunfo antecipado, espumando de raiva, sacou a arma e rugiu:

— Alma sebosa! — o primeiro dos dois tiros saiu ainda no “o”, estirado e rasgado em fúria.

O criminoso, ligeiro que só ele, ainda conseguiu se jogar da ponte, porém o segundo tiro o atingiu no meio do movimento e ele foi cair todo desmilingüido justamente no catamarã, provocando grande susto nos turistas.

Seu Vieira, que havia se apoiado na beira pra ver o destino do infeliz, soltou a arma no Capibaribe e arriscou uma corrida, mas o sustento lhe faltou e ele tombou de joelhos. Exausto, sentou num canto da calçada, respirou fundo, alheio aos curiosos que se acotovelavam para olhar lá embaixo o alvo daquela caçada.

Um policial se agachou perto dele e tocou seu ombro.

: — Tudo bem, compadre? — Seu Vieira só muito a custo focou o policial, tinha a boca seca e seu corpo estava mal.

— Tudo bem, agora está tudo bem.

— Quer ajuda?

— Não, só me deixe ficar aqui um tiquinho e eu já vou pra casa. Bateu uma canseira.

— O senhor viu o que aconteceu aqui?

— Não, o que aconteceu aqui?

— Tiro. — O policial se aprumou e foi pra junto dos colegas.

Seu Vieira deixou a cabeça cair sobre o peito, fechou os olhos e sorriu satisfeito.

*

Bragança Paulista, 2020

Imagem: Pixabay/Pexels

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