Brevidades #44

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“O Aluno Genial”, conto do meu xará Yuri Vieira, apresenta três lições:

1 – Há pessoas que simplesmente não conseguem se elevar, já estão com o espírito tão embrutecido e com a inteligência tão obscurecida que a elevação rumo ao bom, belo e verdadeiro é praticamente impossível, demanda um esforço sobre-humano. Este é o caso de Teófilo, o professor do conto.

2 – É estupidez uma pessoa de competência superior se colocar totalmente à disposição de alguém de competência inferior. É ainda mais estupidez fazer d’um inferior seu mestre. Este foi o erro fatal cometido por Maimônides, o gênio da história, o que nos leva à terceira lição.

3 – Todos, até mesmo os mais brilhantes entre nós, estão sujeitos a lapsos de burrice.

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Em “A velha branca e o bode vermelho”, relato contido em “Assombrações do Recife Velho”, Gilberto Freyre conta d’uma velha franzina, branca, branca, quase albina, que ignorava as agruras das sobrinhas e se refestelava cobrindo seus santos co’as jóias mais finas. A esquálida senhora possuía um santuário privado e nutria especial devoção, devoção até indecorosa, pela bela imagem do Jesus menino, que cobriu com a maior parte de suas riquezas materiais.

Acontece que amar imagens não é amar ao próximo, e por esquecer dessa orientação tão cristã a mulher recebeu a visita d’um capiroto encarnado.

Ademais, talvez a velha tivesse tentado transmutar sua avareza em cuidados religiosos, dando elevados contornos espirituais ao materialismo mais exacerbado; sou leigo e posso estar errado, mas vejo tal inversão como grave pecado.

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Ontem li vários relatos assombrados do Gilberto Freyre, todavia a situação que mais ficou comigo nada tem de ostensivamente sobrenatural; refiro-me aos figurões jantando normalmente no Palácio do Governo de Pernambuco enquanto o pau entre tropas e revoltosos quebrava lá fora. Janelas do palácio chegaram a ser estilhaçadas por tiros e o governador se recusava a reduzir a dignidade do jantar, era vinho e rosbife goela abaixo, com tudo arrumadinho, e ninguém se atrevia a reclamar.

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