Brevidades #50

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Lembro-me que uma vez escrevia um conto guiado por um protagonista que passava boa parte da história com uma tocha na mão e me agoniei por, afinal, não saber como uma tocha era feita e como ela se comportava de verdade. Larguei a caneta em cima do caderno e iniciei minha pesquisa; naquela mesma noite fizemos duas tochas no quintal e a experiência, com o perdão do trocadilho, foi iluminadora. Apreciei as línguas de fogo em contraste com o céu escurecido e o som do ar ferido e acuado produzido pelo agito da chama, até me empolguei e mandei um “back away, beasts!”, enquanto brandia o artefato, aguerrido; mas aprendi que tochas são perigosas, pois o fogo, voraz e insistente, dança ao sabor do vento, de maneira que uma lufada mais inesperada pode incliná-lo para locais indesejados; ademais, dependendo da estripulia realizada e da feitura da tocha, o tecido inflamado se solta e voa qual globo de fogo lançado por feiticeiro de mundo fantástico, ou se desenrola e desce pelo bastão como um agressivo ofídio incandescente.

Uma das delícias de ser escritor ficcionista é executar esse tipo de experiência.

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Tenho a impressão de que, para o brasileiro médio, a vida só faz sentido com muito barulho. Aliás, o brasileiro, não conseguindo conter dentro de si aquela alegria histérica, coisa forçada ou catarse descarregada d’uma vida miserável e oprimida, acende bombas, chuta o volume do som, o escapamento da moto, a canela do companheiro — pois só assim explico as gritarias tribais, certamente feitas co’os olhos arregalados ao céu, que dilaceram as mais parrudas pregas vocais –, e jura ter espalhado seu sentimento esfuziante ao mundo entorpecido.

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Machado de Assis era um escritor genial, o primeiro parágrafo de “Dom Casmurro” apresenta a ambigüidade do protagonista, talvez a característica mais importante daquela obra, o cuidado que o escritor tinha até com seus personagens menores e exibe um traço que parece indelével na alma nacional.

O caráter ambíguo de Bentinho é apresentado através de sua interação com o jovem poeta no trem; o cuidado do escritor até com seus personagens mais passageiros é demonstrado no trato do autor com o poeta; por fim, ao pontuar que o lírico, mesmo sendo alguém de espírito mais incomum e elevado — falara da lua! –, também havia deitado palavras sobre ministros num papo breve de viagem curta, Machado explicita a irritante obsessão brasileira com política.

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Não fumo, mas acho engraçado esse povo que, quando morre um fumante lá entre os 70 e 80 anos, estufa o peito com os ares da superioridade, quiçá reunidos d’alguma Asgard imaginária, e proclama os males do cigarro e o destino fúnebre de seus adeptos. Toda vez que escuto um sabugo desses mal consigo conter um sorriso e a vontade de perguntar se a pessoa que está falando é um imortal excelso para quem 70 ou 80 anos não são mais do que uns segundinhos pra catucar o nariz.

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